4ª temporada de Black Mirror tem mais altos que baixos | Crítica

by - janeiro 02, 2018


Black Mirror já se tornou um seriado consagrado graças a sua assustadora temática com tecnologias nem sempre tão futuristas assim. A quarta temporada foi lançada na última sexta-feira de 2017, dia 29 de dezembro, pela Netflix. Seus seis episódios dividiram a opinião do público que, em sua maioria, achou a temporada irregular em relação as anteriores, mas isso não significa que não há ótimos episódios que possuem grande mérito, ainda, por serem todos protagonizados por mulheres.


(Divulgação/Netflix)
USS Callister
O primeiro episódio, com claras referências à série clássica de Star Trek, recebeu duras críticas dos fãs antes de seu lançamento, mas que morderam suas línguas após assistirem este que é considerado por grande parte do público como o melhor episódio da nova temporada por conseguir adicionar doses reais de entretenimento sem desmerecer o clima sombrio que cerca Black Mirror.

Este episódio mostra a evolução dos jogos de Realidade Virtual e os perigos que essa submersão digital pode oferecer quando um desenvolvedor maníaco leva o ambiente de jogatina a outro nível ao inserir DNA humano para adicionar personagens a seu "The Sims Nerd", aparentemente sem saída, tornando-se uma espécie de deus em seu mundo repleto de diálogos clichês e uniformes coloridos típicos de seriados de ficção científica dos anos 60.

As peças de seu tabuleiro precisam pensar fora da caixa para encontrar um modo de derrotar o criador, e a criatividade e fascínio seguem em narrativa até os últimos segundos do episódio. O destaque em atuação vai para Cristin Milioti, conhecida principalmente por seu trabalho em How I Met Your Mother, como Tracy, "a mãe".

(Divulgação/Netflix)
Arkangel
Dirigido pela atriz Jodie Foster, que possui grande interesse em trabalhar com fortes psicologias, o segundo episódio da nova tecnologia de Black Mirror apresenta uma mãe super protetora que, após perder brevemente a sua pequena filha, resolve aderir a uma tecnologia experimental que funciona como uma espécie de babá eletrônica com rastreamento: basta um implante indolor para manipular o que a criança vê e ouve, como um eficiente parental control que, como tudo em Black Mirror, tem seus efeitos colaterais.

Uma criança que cresce sem experiências de dor, sangue, linguagem imprópria e outros conteúdos relacionados acaba não estimulando fatores essenciais para a sobrevivência social humana, atrasando o desenvolvimento da menina em relação a seus colegas de escola, por exemplo, mostrando, mais uma vez, os danos que o uso excessivo de tecnologias (e de controle materno) podem causar.

O progresso é muito mais lento em Arkangel se comparado com o primeiro episódio. Este não possui o menor interesse em entreter o espectador, preocupa-se apenas em transmitir a sua mensagem quanto ao uso invasivo de tecnologias, relação mãe-filha, privacidade e amadurecimento. Isso não significa que seja chato: apenas um típico episódio com peso psicológico.

(Divulgação/Netflix)
Crocodile
A tecnologia entra neste episódio como uma forma da polícia obter imagens diretamente da mente das testemunhas em processos investigativos, recuperando memórias que são transmitidas em um pequeno televisor. Após encobrir o atropelamento fatal de um ciclista em uma estrada da Islândia, Mia (Andrea Riseborough) envolve-se em uma série de acontecimentos ainda mais cruéis que provam que a mentira tem pernas curtas.

Ao enfrentar seu passado a protagonista não é convincente o suficiente. Embora excessivamente contraditória, Mia é dona de ações frias e calculistas que fazem o episódio caminhar a seu desfecho épico e inesperado que é, sem dúvidas, o melhor momento de Crocodile.

(Divulgação/Netflix)
Hang the DJ
Um episódio bem elaborado que custa certo tempo a ser compreendido, mas que consegue conquistar o posto de um dos melhores da nova temporada quando captada sua mensagem. Os protagonistas Any e Frank saem em sua jornada em busca do amor por um sistema de namoros arranjados bem moderno, como um Tinder em tempos de Black Mirror e em uma sociedade afastada que promete 99,8% de sucesso.

O "aplicativo" marca encontros e dita o prazo de validade obrigatório deste casal, simulando diversas situações até, por fim, ao menos teoricamente, encontrar seu par ideal. Entretanto, a dupla principal não apresenta grande contentamento com suas novas experiências amorosas de longa data enquanto eles, que se deram tão bem, tiveram apenas 12 horas para aproveitar um ao lado do outro. Alerta de spoiler: o casal que vimos ao longo do episódio é apenas uma dentre as mil simulações virtuais que analisavam a compatibilidade deste relacionamento. Para ficarem juntos, Any e Frank rebelaram-se em 998 das 1000 vezes, comprovando a tal taxa de 99,8%.

O episódio tem mensagem dupla: a) aplicativos de namoro podem funcionar e b) ir contra sistemas que ditam o comportamento humano. Já pode inserir aqui o selo "isso é tão Black Mirror" de qualidade.

(Divulgação/Netflix)
Metalhead
O consenso geral definiu este como o episódio mais "o quê?" de toda a temporada, se não até de toda a série. Ele vai pela ideia mais batida possível, humanos contra máquinas, quando apresenta três saqueadores que, ao buscar um pacote de conteúdo desconhecido ao público em um velho depósito, são atacados por uma espécie de cão de guarda metálico e robótico. Apenas uma mulher, Bella, sai viva do ataque, mas seus dias passam a serem marcados por perseguição: o robô não se contenta em deixar alguém escapar com vida.

Sendo basicamente um episódio de fuga em que o único objetivo é sobreviver, o quinto episódio de Black Mirror, escrito por Charlie Brooker e dirigido David Slade, é genérico e não apresenta desfecho marcante que leve a grandes reflexões como os episódios em geral da série. A história está ali, mas falhou em desenvolvimento, construção de clima e clímax. Esquecível.

(Divulgação/Netflix)
Black Museum
O último episódio não se apresenta muito promissor, mas ao longo de sua duração consegue cresce e conquistar o público com uma forma inovadora em Black Mirror: a contação de histórias. Quando um museu pouco frequentado recebe a visita da jovem Nish (Letitia Wright), seu responsável, Rolo Haynes (Douglas Hodge), narra a história de alguns dos artefatos em exposição, como se fossem pequenos episódios de Black Mirror com referências a outros episódios de Black Mirror dentro de um episódio de Black Mirror. Quer mais Black Mirror que isso?

Somos apresentados a três narrativas: um doutor que passa por um implante neurológico experimental que lhe permite sentir sensações físicas de outras pessoas, um homem que transfere a consciência de sua esposa em coma para seu cérebro e um criminoso que renasce como holograma no Black Museum. Quando você acha que uma nova história está prestes a começar, os protagonistas originais do episódio voltam a ganhar importância e o desfecho é surpreendente. Grande exemplo de bom desenvolvimento de enredo que caminhou para uma excelente conclusão.

(Divulgação/Netflix)
Apesar de alguns episódios instáveis, a quarta temporada de Black Mirror consegue ser concluída com um crédito de mais altos do que baixos e o bônus do excelente protagonismo feminino em todas as seis narrativas, com diferentes faces, personalidades e tecnologias. Não chega nem perto de ser o melhor ano para o seriado, mas garantiu uma boa safra com honra.

Veja também:

0 comentários