On the Beach at Night Alone reflete sobre a vida com excesso de diálogos

by - fevereiro 18, 2018


밤의 해변에서 혼자, ou "On the Beach at Night Alone (Sozinha na Praia à Noite)" é um filme sul-coreano de 2017 com roteiro, produção e direção por Hong Sang Soo, selecionado para competir no 67º Festival Internacional de Cinema de Berlin, onde a protagonista Kim Min Hee ganhou o prêmio Silver Bear (Urso de Prata) na categoria de melhor atriz.

O filme nos apresenta a Young Hee, uma popular atriz que, após ter sua vida pessoal exposta ao envolver-se em um caso de adultério com um diretor cinematográfico, resolveu passar um tempo em Hamburgo, na Alemanha, para dar uma pausa em sua carreira e colocar os pensamentos em ordem. Em seu retorno à Coreia, reencontra-se com alguns velhos amigos para noites de boas conversas regadas a álcool, onde acabam refletindo sobre a vida.


Com a força da bebida, ganha coragem para soltar a voz e dizer o que realmente sempre, sinceridade que acaba gerando alguns conflitos entre os indivíduos, mas em situações que acabam por dizer muito sobre ela mesma, ajudando-a a se redescobrir nessa nova fase de sua vida, em que caminha entre a tranquilidade de sua vida longe dos holofotes e o desejo de voltar a atuar profissionalmente, como sempre amou.

Tais diálogos predominam o filme, sendo substituído momentaneamente apenas pelo silêncio, nada de ações: o mais próximo disso que você pode conseguir são algumas explosões temperamentais que resultam em gritos e olhares assustados, no mais, nada. Obras que optam pelo uso desse recurso são comumente considerados como filmes chatos, tediosos, mas há aquela minoria paciente que consegue enxergar a beleza e poesia em meio ao excesso de conversas nada fiadas, porém afiadas.


A protagonista, Young Hee, que muito já sofreu, é uma mulher forte e desconstruída, que quebra com o conservadorismo coreano em diversos momentos. Simpática, mas ao mesmo tempo destruída, tenta encontrar uma forma de recuperar a sua vida normal após a grande dificuldade que vivenciou, e embora tente demonstrar apenas aspectos positivos sobre si mesma, é durante as conversas com os amigos em que sua vulnerabilidade se expõe.

Com ela, é revelada toda a sensibilidade, beleza, feiura e os reais sentimentos da personagem que já não possui mais tanta certeza sobre a própria vida e sobre o amor. Sua personalidade é única, e brilhante, mas ao mesmo tempo egocêntrica e também reprimida, sem espaço para nuances, apenas verdades ou falsidades inteiras que são convencionalmente ocultas ou transmitidas, como se a personagem, como boa atriz que é, conseguisse manter uma personagem de si mesma durante grande parte do tempo, exceto quando uma força maior é sobreposta a ela, como o álcool.


Ainda que seja um filme belíssimo, a identificação só acontece se você tiver passado por uma situação semelhante a da protagonista, o que não foi o caso. Sem isso, você ainda consegue sentir a excentricidade de suas ações, mas não chega a despejar uma forte carga emocional, como esperado. Elemento que também colabora com o nosso sentimento de boa recepção à intimidade da obra é sua fotografia.

A cinegrafia trabalhada tem lá suas peculiaridades, com um modo de zoom tão rústico e seco a contracenar com as belezas naturais e delicadas das localidades escolhidas para a gravação sem que essas percam a sua simplicidade. A câmera também costuma ficar estática por alguns minutos durante as conversas, sem dar ao espectador o trabalho de se perder em meio a inúmeras trocas de cenas, conseguindo focar perpetuamente na poesia das falas e da ambientação, unicamente.


Como detalhe, o diretor Hong Sang Soo tem uma certa fixação por comumente apresentar histórias sobre cineastas em seus filmes, como neste e em suas outras obras A Mulher é o Futuro de Homem, de 2004, Nossa Sunhi, de 2013 e Certo Agora, Errado antes, de 2015. Essa peculiaridade pode ser tanto um eu-lírico do autor, como um recorte autobiográfico do próprio ou, até mesmo, uma mera coincidência. Independente da resposta, são abertas várias portas para interpretações e análises.

Embora o título do filme, são raros os momentos em que Young Hee encontra-se fisicamente sozinha, ainda que o sentimento em seu coração seja constantemente de solidão. Quando ela apenas existe e, em meio a seu existencialismo, acaba aprendendo mais sobre si mesma. Na praia, à noite, sozinha. E talvez todos nós precisemos tirar um momento a sós com nós mesmos pelo menos uma vez na vida.

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2 comentários

  1. Confesso que não entendi muito bem o propósito do filme, de qualquer forma parece ser algo bem excêntrico.

    www.estante450.blogspot.com.br

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    1. É daqueles filmes que tem mais o intuito de ser bonito e passar uma mensagem de reflexão (no caso, sobre a vida, como lidamos com nossos problemas, superação e personagens de nós mesmos) do que de se converter em algo de entretenimento mesmo, daí sua excentricidade.

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