Para Poder Viver é autobiografia sentimental de norte-coreana por sua liberdade

by - março 17, 2018


"Para poder viver: A jornada de uma garota norte-coreana para a liberdade" é um livro autobiográfico onde Park Yeonmi, a autora e protagonista, revela ao público a verdade nua e crua sobre a sua vida. Quando abandonou a Coreia do Norte em 2007 para fugir à China, não sonhava com liberdade ou sequer imaginava que um dia chegaria a Coreia do Sul: para ela, naquela época, a fuga era a única maneira de sobreviver à fome.

A narrativa detalhada nos apresenta desde antes do nascimento da garota, introduzindo seus pais e como eram suas vidas antes de se conhecerem até o casamento arranjado, já que o amor na Coreia do Norte é expressado apenas para o Querido Irmão, como logo engravidaram de sua irmã mais velha, Eunmi e, anos mais tarde, de Yeonmi. Narra sua infância e os altos e baixos que encarou enquanto a classe social (songbun) de sua família oscilava até cair de uma vez por todas, os levando a única alternativa que lhes possibilitaria a sobrevivência: a fuga para a China. 


Separadamente, são enviados a China. Yeonmi, muito nova, com apenas treze anos, acompanhou a mãe nessa jornada iniciada não pelo sonho de ser livre, mas de algo tão banal como poder se alimentar e sobreviver. Entretanto, a inocência norte-coreana as levou a um submundo chinês onde precisam encarar traficantes e contrabandistas para continuarem vivas, ainda com muita luta.

Após dois anos foragidas em território chinês, cansam-se da vida difícil que levavam neste novo conceito de prisão e começam a entender que mais do que sobreviver, precisam ser livres. Assim, são guiadas por cristãos até a Mongólia, com a promessa de serem resgatas e levadas a Coreia do Sul logo em seguida, mas novamente o caminho é árduo e nada lhes é facilitado. Nem mesmo quando chegam no aclamado Sul em 2009 onde, já mais velha, Yeonmi passa a compreender a sua função na sociedade e, hoje, é uma ativista pelos direitos humanos contando sua história para todo o mundo, seja por entrevistas, palestras ou por meio de seu livro, Para Poder Viver.


A narrativa de pouco mais de 300 páginas é dividida em três partes, sendo a primeira passada na Coreia do Norte, a segunda na China e, por fim, na Coreia do Sul, embora na última a garota também se divida por viagens para os Estados Unidos, Costa Rica e Europa. Sua história já é conhecida pelo público internacional: em 2014, foi convidada para contar sua história no One Young World e o relato tornou-se extremamente popular em todo mundo.

Com o livro, organiza e expõe todos os detalhes do seu processo de conhecimento pessoal e do mundo, nos apresentando com uma visão extremamente pessoal e íntima a o que é de fato o regime ditatorial norte coreano e o que os cidadãos desse país são capazes de passar para por um mísero grão de arroz na boca, para sobreviver.


Não esconde como foi muito privilegiada - nos padrões locais - por algum tempo, quando sua família conseguiu, mesmo que ilegalmente, uma fonte de dinheiro que conseguiu mantê-los confortáveis por algum período, assim como não nega o quão difícil foi abrir mão de seus "luxos" quando as necessidades apertaram, embora também confesse que as oscilações financeiras eram tão frequentes que entendia que, em meses, teriam arroz em abundância, enquanto em outros mal teriam o suficiente para forrar o estômago.

Conta, com muitos detalhes, relatos de estupro e de tráfico humano que ela e sua mãe precisaram se submeter no período em que estiveram na China, trechos longos da segunda fase do livro que são tão intensos a ponto de provocarem náuseas e extremos desconfortos no leitor, que sente empatia diante a tamanhas humilhações que poderia ter representado a Yeonmi o fim de sua humanidade, mas só lhe deu mais forças para seguir em sua luta pela liberdade.


Comenta, ainda, sobre a importância da leitura em sua vida e como o contato com os livros a ajudaram a desenvolver seu pensamento crítico, algo que não faz parte da natureza dos norte-coreanos, desde cedo treinados a obedecerem e idolatrarem seu líder sem questionamentos. Chega a relacionar a Coreia do Norte e sua vida por lá com livros de George Orwell, como 1984 e A Revolução dos Bichos, e como as biografias de celebridades norte-americanas a inspiraram a superar seus obstáculos, antes mesmo de entender que uma história poderia ser capaz de inspirar pessoas.

Por ser uma pessoa já internacionalmente conhecida, o desfecho de sua história é explicito ao leitor antes mesmo de se iniciar a leitura, motivo pelo qual não me contive em resumir superficialmente sua jornada na abertura desse texto. Entretanto, a profundidade de seu relato, a riqueza de detalhes, as surpreendentes e muitas vezes excruciantes reviravoltas dadas em sua vida, a crueldade humana e a última gota de esperança viva são tão fortes e marcantes ao longo da narrativa que Para Poder Viver deve ser lido na íntegra.


Qualquer resumo, por mais detalhado que seja, perde total sua força por não conter as palavras daquela que sentiu a opressão e desumanidade na própria pele. Park Yeonmi, sua mãe e todos aqueles que cercam sua história são grandes guerreiros que precisam ter suas vozes ouvidas a fim de, algum dia, podermos livrar todos os nortes-coreanos que vivem em situações semelhantes ou até mesmo piores que as relatadas no livro. Para que, algum dia, todos sejam capaz de vivenciar a liberdade.

O livro foi publicado pela primeira vez em 2015, nos Estados Unidos, e chegou ao Brasil no ano seguinte pela editora Companhia das Letras, com tradução de Paulo Geiger. No mesmo ano, a ativista foi entrevistada pelo Fantástico, programa da Rede Globo, contando um pouco de sua história à emissora que também comentou o lançamento de seu livro.

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