Diferenças culturais entre as Coreias são evidenciadas em show de K-POP no Norte

by - abril 13, 2018

Foto: Reuters
O grupo Red Velvet e Seohyun, membro do Girls' Generation, se apresentaram entre os dias 01 e 03 de abril em Pyeongyang, capital norte-coreana, para o evento pacífico Spring is Coming (봄이 온다). Com o lançamento dos vídeos na internet, muitos fãs internacionais ficaram chocados com as diferenças culturais evidenciadas durante as apresentações.

Desrespeito com o artista? Não, apenas uma evidência da gigantesca diferença cultural entre os países que, um dia, já foram uma península unificada. A separação das Coreias tem como marco oficial o de ano de 1948, pouco após a Segunda Guerra Mundial, e eclode na Guerra da Coreia, entre os anos de 1950 e 1953, o que resulta na divisão do país, transformando o Sul em uma das mais influentes potências econômicas mundiais enquanto o Norte adota um rígido modelo de regime socialista que está em vigor até hoje, em sua terceira geração de comandantes.

Enquanto no Sul, que já conhecemos, foi instaurada uma forte influência dos Estados Unidos e, hoje, é um dos maiores exportadores de conteúdo cultural do mundo, com a popularização de suas séries (chamados "dramas), filmes e, principalmente, de sua música: o famoso K-POP.

No Norte, entretanto, há leis estritas que proíbem o contato de seus habitantes com qualquer produção internacional, principalmente sul-coreana e americana, que são fortemente influenciadas pelo capitalismo, o extremo oposto da política do país, inclusive com punições severas para quem for pego desrespeitando as normas. Tudo isso para manter a "pureza norte-coreana" e não abalar o seu sistema socialista.

Desse modo, a Coreia do Norte aparece sem estrangeirismos tanto em sua cultura como em sua linguagem: enquanto no Sul surgia o konglish, termo que descreve a mistura entre os idiomas coreano e inglês que se evidenciam na oralidade dos sul-coreanos e se transporta para suas músicas, que ainda que primordialmente cantadas em seu idioma materno, coreano, "pega emprestado" termos e frases da língua inglesa. Nos últimos anos, em músicas como "Me Gustas Tu", de G-Friend, e "O Sole Mio", de SF9, começa a exibir influência ainda de outros idiomas, como o espanhol e italiano, respectivamente, demonstrando que o Sul segue aberto para outras culturas. No Norte, suas canções são absolutamente e unicamente em coreano, e em suas temáticas abordam, principalmente, o amor ao Grande Irmão, a fidelidade a seu país e heroísmo de sua libertação, horando-o, inclusive, na escolha das palavras - isso para não comentar que não se é permitido aprender outros idiomas, portanto, mesmo se quisessem cantar em inglês ou espanhol, por exemplo, não poderiam.

Foto divulgada pela KCNA.
Para nós, que estamos mais acostumados com o sistema capitalista e com a cultura sul-coreana, ver os vídeos do show de K-POP no Norte chegam a ser surpreendentes e até mesmo chocantes, mas de certo modo muito interessante para analisar quanta coisa mudou ao longo destas cinco décadas em que as Coreias se mantiveram divididas e, hoje, um povo que um dia foi um, se diverge em tantas instâncias. Enquanto as garotas do Red Velvet ou Seohyun performam com o mesmo fervor e paixão que fazem em outros países, o público demonstra-se muito diferente do que estamos habituados, em predominante quietude, e o que para nós poderia significar o "não-gostar" do que está assistindo, representa, na verdade, o respeito e a obediência que fazem parte da cultura da Coreia do Norte.

Lá, é comum que os aplausos sejam entregues apenas após a apresentação. Gritos durante a performance, embora sejam vistos como clamor positivo do público em outros países, como a Coreia do Sul e o próprio Brasil, não é algo que faça parte da cultura do Norte. Os populares fanchants não existem, portanto, e a própria palavra já seria vetada por seu estrangeirismo - não que fosse esperando algum fanchant neste show. O konglish do K-POP torna-se uma barreira linguística, pois trechos como "don't you wanna dance like this", da faixa Red Flavor, são incompreensíveis para os norte-coreanos, que podem ter se sentido um tanto perdidos quanto ao significado da música.

Ainda assim, é notável em alguns vídeos que o público estava acompanhando às músicas com palmas silenciosas, e, na canção de reunificação das Coreias, algumas vozes inclusive eram ouvidas, demonstrando o impacto das canções sulistas no povo do Norte. O líder norte-coreano Kim Jong Un também aplaudiu às apresentações. E independente de prováveis desentendimentos linguísticos, os artistas foram muito bem recebidos pelos norte-coreanos: Seohyun, do Girls' Generation, foi ovacionada em pé e com gritos após a sua apresentação em ato que demonstra o carinho e respeito do público norte-coreano por esta cantora sulista que, recentemente, esteve no mesmo palco que uma popular orquestra do Norte durante o evento de abertura das Olimpíadas de Inverno, em Seul.

Confira as apresentações de Red Velvet e Seohyun em Pyeongyang pelos vídeos abaixo:








Red Velvet é o primeiro grupo feminino do Sul a performar na Coreia do Norte desde a apresentação do Baby VOX em 2003. "Estamos muito honradas e felizes por atender a um evento tão significado. Como será a nossa primeira vez performando em Pyongyang, estamos ansiosas. Iremos nos preparar bem para entregar excelentes apresentações", comentaram as integrantes do Red Velvet à mídia coreana alguns dias antes do concerto. 

Além das estrelas do K-POP, outros artistas como Baek Ji Young, Cho Yong Pil, Lee Sun Hee, Yoon Do Hyun, Ali e Jung In também se apresentaram no concerto especial de música sul-coreana na Coreia do Norte. Kim Jong Un é o primeiro líder norte-coreano a comparecer a um evento sul-coreano na Coreia do Norte. O comandante foi visto aplaudindo algumas músicas durante as apresentações e até mesmo posou para fotos com os artistas sulistas após o show. 

Do Jongwhan, Ministro da Cultura, acompanhou Kim durante o show e revela que o líder norte-coreano demonstrou grande interesse nos artistas do Sul, perguntando sobre as músicas e as letras apresentadas. A KCNA, agência de notícias estatal norte-coreana, afirmou posteriormente que Kim "ficou comovido com a visão de seu povo aprofundando seu entendimento da cultura popular sul-coreana e aplaudindo com sinceridade", segundo tradução do R7.

A apresentação de música sul-coreana em Pyongyang visa estimular os intercâmbios e a cooperação intercoreana que tem sido retomada desde os Jogos Olímpicos de Inverno. Após as performances, os artistas sul-coreanos foram presenteados com buquês de flores.

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