Sim, é possível ser feminista e dorameira

by - abril 14, 2018


Há poucos dias vi uma publicação no Facebook que me causou tamanho descontamento. Tratava-se de uma página de fãs brasileira sobre doramas que publicou um meme muito inconveniente de dois botões em que você só poderia apertar um: ou "ser dorameira", ou "ser feminista", defendendo a impossibilidade de se poder ser os dois. Mas nós sabemos que sim, é possível ser feminista e ser fã de dramas coreanos ao mesmo tempo.

Ser fã de dramas não significa fechar os olhos ao patriarcado coreano

Não é novidade nenhuma que a Coreia é um país machista e, como qualquer outro, tem suas características culturais transferidas para suas produções, como os dramas televisivos. Não é raro nos deparamos com dramas que colocam a mulher em posição de frágil e submissa ao homem, mas isso não significa que deva ser visto como algo normal: devemos, sim, criticar esses valores que reforçam a ideia ultrapassada de que as mulheres são fracas e devam fazer todas as vontades de seus amantes que não levam em consideração os desejos dela.

O que se está em questão, neste caso, não é ser ou não ser feminista, mas não deixar de ser crítico mesmo na ficção, pois esta é um reflexo da realidade e a realidade precisa ser mudada: para repudiar as ações machistas que os dramas podem conter você não precisa necessariamente odiar os dramas, só as ações, porque se essas são tão comumente retratadas em séries é porque já são intrínsecas da cultura local. E não é porque é cultural que não pode ser mudado, principalmente quando essa cultura interfere nos direitos de outros - no caso, das mulheres.

Reprodução/DramaFever
Tem-se falado muito ultimamente sobre o caso do drama Playful Kiss, de 2010, que embora seja considerado um dos clássicos contemporâneos da televisão asiática e, em seu lançamento, tenha sido muito aclamado pelo público, a "nova visão de mundo" com as questões femininas em alta tem levantando as vozes contra o drama nos últimos anos por seu conteúdo sexista. Isso porque, no mundo dos dramas coreanos, o abuso é fantasiado de romantismo - pegando emprestado as palavras da Débora, do Debi Strange Bubble.

A revista brasileira KoreaIn também escreveu sobre o assunto, relacionando cenas clichês de dramas coreanos que foram citadas em uma cartilha coreana de exposição de violência, como as famosas cenas em que homem puxa a mocinha com força, a empurra contra a parede, tenta beijá-la sem seu consentimento. O material completo você confere no site da KoreaIn que pede, ainda, que o publico se atente a estes sinais de "close errado" dos dramas e redobre os cuidados na vida real: ao identificar qualquer um destes comportamentos dentro do seu relacionamento, busque ajuda.

Existem, entretanto, muitos outros dramas que representam a mulher sem estereótipos, sendo os mais populares e citados Strong Woman do Bong Soon (2017), Age of Youth (2016), Oh My Venus (2016), Doctor Crush (2016) e It's Okay That's Love (2014). O que estes dramas possuem em comum é o protagonismo feminino que vai além dos papeis clichês de ingenuidade e submissão, mas de mulheres fortes, independentes e que lutam, de algum modo, por si mesmas ou por seus próximos. Isso não impede essas mulheres de se apaixonarem: o romance também está presente nesses dramas, mas totalmente livre de dominação e obediência. Apenas amor de igual para igual.

Reprodução/Tumblr
Perceba, então, que todas as produções citadas são recentes, de menos de cinco anos. Embora existam produções mais antigas, como Protect the Boss e City Hunter, ambos de 2011, essas narrativas começaram a serem produzidas em maior escala apenas nos últimos anos e isso está diretamente ligado ao contexto sociocultural do país: As mulheres na Coreia do Sul foram caladas por muitos anos, mas recentemente começaram a levantar suas vozes pela igualdade de direitos e representatividade: Influenciadas pelo movimento #MeToo que surgiu nos Estados Unidos, os meses de fevereiro e março de 2018 foram marcados por protestos, manifestações e denúncias de abusos e agressões sexuais que sofreram.

Este outro texto, do Sarangingayo, demonstra algumas manifestações por igualdade de direitos que tem sido feitas por meio artísticos, como o clipe de Go Away, do 2NE1, lançado em 2010 e que discute a agressão física dentro de um relacionamento, enquanto explica com dados históricos como o feminismo tem se dado na Coreia do Sul desde seu surgimento singelo no início do século XX até se tornaram pautas frequentes nos últimos anos, após muita luta.

Divulgação/SM
Ainda assim, as mulheres coreanas continuam sendo vítimas de ódio quando manifestam seu posicionamento positivo. Como exemplo na grande mídia, a cantora Irene, líder do grupo Red Velvet, recentemente foi atacada por seus próprios fãs, homens, após comentar em uma entrevista sobre um livro de cunho feminista que estava lendo, o que resultou em um momento de revolta no fandom que quebrou postcards da artista em manifesto seu descontentamento com Irene. Comentam, segundo tradução da KoreaIn:

"Estou desapontado com ela."
"Eu me arrependo de um dia ter pensado em casar com você."
"Não se finja de inocente. Ela precisa saber que a maioria dos fãs dela são homens e é errado ela fazer eles se sentirem mal quando são eles que gastam dinheiro com ela."

Em visita ao Brasil, a cantora de hip-hop Nada, ex-membro do grupo de K-POP Wa$$up, foi perguntada pela Capricho sobre o caso de Irene e sobre a misoginia sofrida dentro do mercado musical, ela responde em defesa a membro do Red Velvet: "Assisti ao vídeo em que a líder Irene fala sobre esse livro. Eu acredito que ler ou não ler este livro não significa uma coisa ruim. Os fãs não deveriam agir desta forma. Hoje fala-se muito sobre feminismo e tentam retratar este tema como uma forma negativa para nós, mulheres. Ser feminista não é cometer um erro e sim um desejo para que este pensamento mude e esteja presente em todos os lugares."

Reprodução/Kdramabee e SBS
"Por que eu sou sua? Eu sou minha. Ninguém pode me ter." — Doctor Crush, 2016

No Brasil, a representatividade feminina dos dramas coreanos tem sido aclamada por um grupo intitulado Dorameiras Feministas, que tem como intuito principal discutir sobre o papel da mulher na televisão coreana e recomendar títulos não estereotipados. O projeto chegou recentemente ao Twitter, pela página @doramafeminista, que se tornou parceiro do Elfo Livre.

Você não precisa escolher entre ser feminista e dorameira, mas você pode escolher se quiser, assim como pode optar por não ser nenhum. Afinal, você é mulher e é livre para realizar suas próprias escolhas e ser o que preferir. Só não vale querer colocar as coleguinhas em caixinhas fechadas que não as representam.

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7 comentários

  1. Que texto maravilhoso garota. Eu vi essa postagem infeliz e fiquei indignadissima com a quantidade de garotas compartilhando o mesmo pensamento embasado em situações ruins do movimento. Seu texto foi tão perfeito, tão certinho. Escolhi te amar ♥

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  2. Amem uma postagem inteligetne sobre o assunto, muito bem colocado, amei <3

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  3. Sou dorameira e consigo ver bem esses casos de cultura machistas nos programas. O que eu fui percebendo conforme assistia e aprendia sobre a cultura coreana é que algumas atitudes machistas/masculinas mexem com a mulher coreana... muitas acham romântica a puxada pelo braço, pegar pela mão e ir saindo, encoxar na parede... vocês podem ver que eles repetem a cena 3 vezes , as vezes de ângulos diferentes. Mas já vi vários programas mostrando abusos mais sérios como espancamento, violencia verbal em famìlia, maus tratos às crianças sendo notoriamente crítico e incisivo quanto a essas situações... Mulheres fortes têm sido mostradas mesmo, ainda bem, mas há as que querem "continuar românticas" , sonham com homens como aqueles que vêm nos doramas machistas lutando por elas.Além disso, a situação se estende para além dos romances quando na cultura coreana, nem um pouca paternalista, a sociedade é uma verdadeira selva quanto educação e emprego, nível social e CASAMENTO. Vejo que lá o respeito com as mulheres vai pro pé, pois ali a igualdade de desrespeito e trairagem é imensa e a supremacia masculina e suas vantagens é gritante. Muitas estão começando a expor suas situações, mas outras não farão isso nunca, pois uma coisinha chamada "situação econômica muito baixa sem condições de melhorar" fala mais alto.


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  4. mulher, não sei nem o que falar, só senti! <3
    Que texto necessário. Obrigada~~

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