Park Yeonmi x George Orwell: entre as distopias e a Coreia do Norte

by - maio 11, 2018


As distopias podem parecer um exagero literário, com propostas absurdas de um futuro talvez não tão provável assim, mas que cada vez mais tem se comprovado na vida real, deixando de assumir apenas a função de mera ficção: George Orwell, com 1984 e A Revolução dos Bichos, previu muitas coisas que, hoje, estão estampadas bem a frente de nossos olhos. 

Muitos de nós não vieram o período da repressão, mas ainda há regimes totalitários no mundo, como na Coreia do Norte. O livro Para Poder Viver foi publicado em 2017 e é a autobiografia de Park Yeonmi, uma garota norte-coreana que conseguiu escapar do território dominado pelos Kim e, hoje, vive em Nova York, está se graduando pela Universidade de Columbia e é ativista dos direitos humanos. 

Em sua obra narra sobre a sua infância na Coreia do Norte, como foi sua fuga para China aos treze anos de idade, sendo contrabandeada para posteriormente atravessar o deserto de Gobi até a Mongólia para, por fim, chegar a Coreia do Sul, onde se estabilizou não só leu 1984 como também relacionou o conteúdo fictício das obras de Orwell com a sua própria vida. Os trechos abaixo foram retirados da edição traduzida de seu livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letras - coincidentemente a mesma editora que publica 1984 e A Revolução dos Bichos no país.


Neste primeiro momento, a autora narra sobre o duplipensar, do original doublethink, uma vez que o termo natural de Orwell não foi traduzido na autobiografia da moça. Apresentada a essa nova palavra durante sua leitura de 1984, relaciona seu significado com a condição norte-coreana de contradição mental como escapatória à loucura. Ela diz:

"Os norte-coreanos tinham duas histórias correndo em suas cabeças o tempo todo, como dois trens em trilhos paralelos. Uma é aquilo que ensinam você a acreditar; a outra é aquilo que você vê com os próprios olhos. Só depois que escapei da Coreia do Sul e li uma tradução de 1984, de George Orwell, é que achei uma palavra para essa condição peculiar: doublethink. É a capacidade de ter ao mesmo tempo duas ideias contraditórias na mente — e de algum modo não enlouquecer. 

É com esse “doublethink” que se pode gritar slogans contra o capitalismo pela manhã, e depois passar pelo mercado à tarde para comprar cosméticos importados da Coreia do Sul. 

É como se pode acreditar que a Coreia do Norte é um paraíso socialista, o melhor país do mundo com o mais feliz dos povos, que nada tem a invejar, enquanto se devoram filmes e programas de TV que mostram pessoas comuns em nações inimigas usufruindo de um nível de prosperidade que nem em sonhos você pode imaginar. 

É como se pode ficar em Hyesan assistindo a vídeos de propaganda que mostram fábricas produtivas, supermercados abarrotados de comida e pessoas bem vestidas em parques de diversão e, ao mesmo tempo, acreditar que você vive no mesmo planeta em que vivem os líderes de seu governo. 

É como se pode recitar o lema “Crianças são rei” na escola e, em seguida, no caminho de volta para casa, passar pelo orfanato onde crianças com a barriga intumescida olham para você com olhos famintos. No fundo, bem no fundo de mim, talvez eu soubesse que algo estava errado. Mas nós, norte-coreanos, podemos ser especialistas em mentir, até para nós mesmos. Os bebês enregelados que mães famintas abandonavam nos becos não encaixavam em minha visão de mundo, e assim eu não conseguia processar o que via. Era normal ver crianças em montes de lixo, corpos flutuando no rio; era normal continuar andando e não fazer nada quando um estranho clamava por ajuda."


Em um segundo momento da obra, volta a citar 1984 com ênfase em seu protagonista, Winston Smith, que é relacionado pro Park com o seu próprio pai. A imagem do personagens fictício que levanta questionamentos em um cenário passivo e se demonstra contra o Partido, a garota enxerga seu pai, figura de oposição que cresceu ao lado da garota, encontrando modos de "sair da linha" para benefício próprio e daqueles que amava.

"Meu pai dizia as coisas mais surpreendentes. Hoje percebo que ele era como Winston Smith em 1984, um homem que em segredo enxergava através da propaganda do Grande Irmão e sabia como as coisas realmente funcionavam no país. Mas eu ainda estava a alguns anos de compreender que os Kim não eram deuses. Eu tinha um sentimento cálido e santo por estar em Pyongyang, onde o Grande Líder uma vez caminhara e onde seu filho, Kim Jong-il, agora vivia. Só saber que ele respirava o mesmo ar fazia eu me sentir orgulhosa e especial — que era exatamente como se supunha que eu deveria me sentir."

Com isso, Yeon Mi revela ainda que, embora a figura paterna como exemplo em seu desenvolvimento, levou mais alguns anos para que ela compreendesse o verdadeiro significado dos Kim, de sua liderança e passar a questionar a opressão que vivia: ela ainda era uma criança na época, com toda a inocência e doutrina que um jovem nascido norte-coreano poderia ter, e tirar essa ideia de divindade de sua cabeça não foi fácil.


Quando saiu do país, adolescente, seu objetivo não era a liberdade, muito menos sabia que teria a Coreia do Sul ou os Estados Unidos como destino final, seu único desejo era fugir da fome, sentimento que foi a primeira faísca para a revolução mental da garota que, hoje, enxerga seu passado e o relaciona com universos distópicos fictícios, compreendendo com olhar crítico a situação em que vivia. Cita A Revolução dos Bichos para explicar como se sente hoje em relação a sua vida passada:

"Li clássicos da literatura, como O apanhador no campo de centeio, O senhor das moscas e contos de Tolstói. Apaixonei-me por Shakespeare. Mas foi a descoberta de A revolução dos bichos, de George Orwell, que marcou em mim um ponto de inflexão. Foi como achar um diamante num monte de areia. Senti como se Orwell soubesse de onde eu era e pelo que tinha passado. A fazenda de animais era na realidade a Coreia do Norte, e no livro ele estava descrevendo a minha vida. Nos animais eu vi minha família — minha avó, minha mãe, meu pai e também eu: eu era como um dos “novos porcos”, sem nenhuma ideia. Reduzir o horror da Coreia do Norte a uma simples alegoria extinguiu seu poder sobre mim. Ajudou a me libertar."

"Ajudou a me libertar", destaco, pelo poder da literatura sobre uma pessoa. Como os livros de Orwell conseguiram prever com tamanha previsão as descrições não de uma Oceania ou de uma fazenda, mas de uma Coreia do Norte que, em plena globalização e imersão tecnológica, segue com um sistema político opressor, de extrema lavagem cerebral, descrito por seus próprios ex-habitantes como horrível, visualizado por uma "ex-fiel" dentro de uma literatura ficcional, futurística e distópica que deveria ter se mantido apenas nos livros, mas a cada dia se torna mais tangível, presente do outro lado do mundo:

Todas essas relações citadas por Yeon Mi em sua biografia nos levam a um criticismo em relação a veracidade tomada pelas narrativas distópicas ao longo dos anos: 1984 e A Revolução dos Bichos, em certo ponto, deixam seu posto de ficção futurística para abraçar tristemente uma ideia de previsão que se concretiza na vida real, como se em vez de obras ficcionais fossem, na verdade, manuais de instruções a serem seguidos, como mesmo não intencionalmente tem sido demonstrados.

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