Celular, de Stephen King, com seu bom toque dramático e o dom de aterrorizar pela verossimilhança - Resenha

by - julho 30, 2018


O século XXI chegou acompanhado dos celulares, pequenos telefones portáteis que rapidamente evoluíram e  passaram não só a serem partes de nossas vidas, como considerados como uma extensão do corpo humano. Com tantas pessoas atingidas e fissuradas por essa tecnologia, o que aconteceria se um misterioso sinal fosse transmitido pela rede de telemóveis, transformando os humanos em seres violentos e primitivos apenas por atenderem a um simples toque de celular? Stephen King imaginou isso. 

Publicado em janeiro de 2006, Cell é um livro de Stephen King, que não possuía um aparelho móvel naquela época, e que chegou ao Brasil um ano mais tarde pela editora Objetiva, com o título em português Celular. Em 2006 foi adaptado para os cinemas, embora o filme não tenha sido tão bem recebido pelo público e crítica - o que já é quase esperado, checando o histórico de adaptações de seus livros. Enfim.

O também escritor Michael Connelly deixa, na orelha do livro, uma mensagem que resume todo o sentimento que possuo por King e suas obras. Ele diz: "Você se assusta, se envolve e entra na história. É o que acontece quando falamos de Stephen King. Não acho que o poder de seus livros esteja nos arrepios que provocam no leitor. Está no fato de que são histórias sobre qualquer um de nós. Se podem acontecer com eles, podem acontecer com você. É isto que torna a história real. Realmente assustadora.".


Isso porque o mais intrigante em Celular é a probabilidade dessa história se tornar real, algum dia. Nesta obra que mistura o horror de uma distopia muito próxima da nossa realidade, tamanha a força dos celulares sobre a vida humana, ainda mais hoje, mais de dez anos após o lançamento do livro, aos dramas dos poucos sobreviventes que precisavam lutar por suas vidas e lidar com suas emoções, medos e egocentrismos, o mestre mais uma vez prova a sua eficácia em contar boas histórias capazes de nos deixar pensativos por dias. 

Assim como em Carrie e Joyland, os únicos outros livros que já li dele, sinto fortemente a questão que o sobrenatural, o fantástico ou a ficção científica, chame como quiser, entram apenas como um plano de fundo para o foco principal da narrativa que é, na verdade, acompanhar o amadurecimento de um personagem diante tal situação, medindo seus anseios e ambições iniciais para, no fim do livro, confrontá-lo com o seu novo eu, o seu novo pensar, totalmente diferente da "criança" das primeiras páginas. Em qualquer das três leituras.


Em Celular, entretanto, sente-se algo diferente, talvez pela quantidade maior de personagens centrais, embora Clay Riddel seja, do início ao fim, o grande protagonista do fluxo mental que King tanto adora - e nós também. No primeiro dia de outubro, Clay estava em Boston e uma grande vitória profissional cruzou o seu caminho, mas pouco tempo teve para comemorar, pois no caminho de volta para a sua "casa" - na verdade, o pequeno apartamento em que estava alojado desde a separação com sua esposa e filho - presenciou o Pulso.

O Pulso é como foi chamado o misterioso sinal enviado para todos os aparelhos celulares e bastava ouvi-lo de relance para "ter seus miolos triturados" e rapidamente deixar de lado toda a sua humanidade para transformar-se em uma espécie de zumbi, totalmente primitivo e bestial, que promoveram uma grande carnificina - o inferno na terra, em outras palavras -, mas de forma mutável, com tendência a piorar ao passar dos dias. 

Clay, que não tinha um telefone celular, muito velha-guarda para essas modernidades tecnológicas, escapou, assim como alguns outros, como Tom, Alice e outros que surgem (e desaparecem, quem sabe?) ao longo da narrativa de desespero, de dor, de luta pela sobrevivência, de medo, mas também de esperança, "meu filho, minha esposa, será que eles estão vivos?", dando o toque Kingniano que esperávamos: a entrada para mente dramática do personagem.


Em meio a este misto de sentimentos inicialmente desconexos, surge a necessidade de aceitação, de superação, de colocar a cabeça no lugar não só por si, mas pela equipe, conforme novas pessoas aparecem em suas vidas e, mesmo entre o caos, cada um a sua maneira e possibilidade, mudam um pouquinho em si mesmas e nos demais.

Os outros personagens, sejam eles passageiros ou recorrentes, também apresentam importantes fluxos narrativos, mas os mais interessantes a serem analisados são, com certeza, Alice e Jordan, coincidentemente - ou nem tanto - os mais novos do livro, trazem um tom de jovialidade que pode ser muito útil em um momento de desespero, mas ao mesmo tempo ser uma faca de dois gumes, por sua instabilidade emocional.

Alice, principalmente. Com apenas quinze anos, é uma das principais personagens da história e acompanhamentos de perto a sua terrível experiência com o Pulso. Por ser a garota da narrativa, os demais personagens, em uma espécie de intertextualidade, assumem nela uma personalidade de "mocinha de filme de terror" do qual a garota se recusa a aceitar como sua imagem, demonstrando-se sempre forte, enquanto tenta encontrar conforto em um "Nike de bebê" que adota como talismã, revelando um encontro entre o medo e a esperança, mas, sobretudo, com a vontade de ser forte. Por ela ou pelos outros.


Enquanto os personagens são profundos em si e em grupos, o desenvolvimento quanto a ficção científica em si é um pouco (muito) aberto. O livro, por acompanhar Clay e seu grupo, não chega a dar uma panorama da história, mostrando demais pontos de vistas ou explicações de terceiros, então ficamos apenas com as informações que são de posse dos personagens principais, sejam elas verdadeiras ou não. Não espere conclusões concretas, notícias de jornais ou entrevistas, como em Carrie. Aqui é na base do "achometro" e de teorias da conspiração.

Isso pode ser tanto negativo quanto positivo, dependendo do ponto de vista. Se você gosta de se sentir um personagem de história, ter acesso a mesma quantidade de informações que os personagens lidos é um bônus, mas se você gosta de ir além do que os protagonistas tem a oferecer, descobrindo novos horizontes e sabendo mais que os personagens, com aquela visão de leitor onisciente, pode se sentir um tanto preso enquanto estiver com esse livro em mãos.

Independente da sua consideração com a forma tomada na história, é difícil de largar esse livro, como já dizia algum jornalista do Washington Post lá em 2006, segundo o texto da contracapa do exemplar. Celular é intrigante e pode incomodar seu sono por alguns dias ou mais, mas vale a recomendação - e o aviso para tomar cuidado com estes aparelhos. Nunca se sabe, né?

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