A Guerra que Salvou a Minha Vida, com imensa sensibilidade, mostra que há coisas piores do que bombas

by - agosto 17, 2018


Kimberly Brubaker Bradley escreveu em A Guerra que Salvou a Minha Vida a emocionante história de Ada, uma garota que não sabe sequer quantos anos tem, mas que viveu todos eles trancada dentro de sua casa para não envergonhar sua mãe em frente aos outros com o seu pé torto de nascença. Pela janela do pequeno e imundo apartamento, vê seu jovem irmão brincar livremente, como qualquer criança deveria fazer, mas uma guerra eminente pode melhorar sua vida.  

A autora se convenciona a chamar o livro de uma "história de superação", mas vai muito além. Passado na Inglaterra, segue o registro preciso da Segunda Guerra Mundial, que marca o início dessa história quando, com as ameaças de invasão de Hitler a Londres, mais de quinhentas mil crianças foram evacuadas para o interior, enviadas por suas famílias para terem uma melhor chance de sobreviverem aos ataques.


Para Ada, a verdadeira guerra estava em sua casa, com os preconceitos e crueldades da Mãe, com M maiúsculo, como é sempre escrito no texto, e sem nunca ter seu nome citado. A oportunidade de sair de Londres para viver em outro lugar é, para a garota, a última gota de esperança, embora provavelmente não soubesse o significado dessa palavra. Ela nunca teve educação, sendo sempre tratada pela Mãe como um objeto quebrado ou coisa pior, e o modo como isso a afeta é descrito na narrativa.

Os registros emocionais da garota são importantes para o desenvolvimento da história, conforme adquire sua liberdade, mais presa se sente, devido aos traumas sofridos ao longo de seus prováveis dez anos de vida, sem amor, sem carinho, sem respeito. Seu psicológico está tão machucado quanto o seu pé, mas ela é nova demais para perceber isso.


Ela vive trancafiada dentro de sua própria mente, com pensamentos autodestrutivos, emanando desconfiança e um forte desmerecimento pessoal que vem acompanhado da incapacidade de aceitar coisas boas em sua nova vida, mas uma jovem mulher solteirona parece ter a garra necessária para reverter essa situação. O caminho será árduo e há muito o que ser feito, mas a paciência e o amor são as maiores forças nesta guerra - além de pôneis, novelos de lã, belos vestidos e bons livros.

A edição física é um mimo a parte, com tamanha sensibilidade editorial e o cuidado para remeter cada elemento do livro a algo de sua história. A ilustração é singela e toma cuidado em mostrar os aviões e o campo de pouso, descritos na narrativa, mas destaca-se mesmo a moldura em retalhos de diversas cores e ilustrações, acompanhados de botões, uma vez que a costura ganha grande espaço para o desenvolvimento não só da história, mas de Ada.


Em seu interior, os botões voltam a aparecer ao início de cada capítulo, em singelas ilustrações que ganham grande significado ao decorrer da leitura. Uma fita de cetim azul vem presa ao livro, para ser utilizada como marcador de página, e recorre mais uma vez ao "novo eu" de Ada, que prende suas tranças bem penteadas com fitas coloridas, assim como as belas garotas, embora ainda não se aceite como tal.

Ficção histórica tem se tornado um dos meus gêneros literários preferidos e, sob o olhar de uma criança, é possível relacioná-lo a O Menino do Pijama Listrado ou A Menina que Roubava Livros, mas com uma sensibilidade superior quando troca o sentimento de medo e de tristeza pela alegria de, pela primeira vez, graças à guerra, estar não só se sentindo livre, mas podendo viver a sua liberdade. 


Não são muitos os autores que tem a coragem e a ousadia necessária para tentar escrever sobre os "benefícios" que uma guerra poderia proporcionar, mesmo em planos de ficção, mas Kimberly Brubaker Bradley se arriscou no assunto e o resultado é sublime, com um poço de sentimentalismo e sensibilidade. O livro nos permite acompanhar o avanço da Segunda Guerra Mundial com precisão histórica e, embora Ada nunca tenha existido, outras Adas podem ter tido relações semelhantes com estes eventos. "Tem coisas piores do que bombas", afirma a protagonista.

A editora DarkSide, que publica a obra no Brasil, não errou ao apresentar o livro como "um daqueles romances que você lê com um nó no peito, sorrisos no roso e lágrimas nos olhos entre um parágrafo e outro". São inúmeras as emoções proporcionadas por essa leitura, mas afirmo que todas elas são muio bem recompensadas e valem a pena. 

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