Aquaman encerra 2018 com chave, ou melhor, tridente de ouro

by - dezembro 16, 2018


Aquaman chegou aos cinemas na última quinta-feira (13). O aguardado filme da DC estrelado por Jason Momoa e com direção do incrível James Wan, até então conhecido franquias de terror como Jogos Mortais, Anabelle e Invocação do Mal, veio para fechar o ano com chave de ouro - ou melhor, tridente de ouro - com toda a qualidade e respeito que o personagem sempre cobrou.

Na televisão, o personagem de maio laranja e calças verdes nunca causou um impacto tão grande, subestimado mesmo entre os fãs da animação, e Jason Momoa vem para quebrar com qualquer imagem negativa que as antigas representações de Arthur Curry tenham deixado: filho mestiço entre um humano e uma atlante, foi destino a unir dois reinos inimigos com seu nome inspirado no rei Arthur.


Acompanha-se o desenvolvimento do personagem desde o seu nascimento, passando pela infância, adolescência, até chegar ao auge de sua vida adulta, mas de uma forma muito sútil e bem menos cansativa que a cronológica: usando cenas dos dias atuais, o filme resgata flashbacks de um passado até então não mostrado do personagem e, de dose em dose, enche-se a garrafa sobre a vida do personagem.

Em toda essa sua caminhada pela autodescoberta, Arthur nunca se viu divido entre os dois mundos: muito bem criado por uma família sem preconceitos, à base do amor, desde cedo aprendeu que as diferenças entre o povo da superfície e os aquáticos jamais deveria ter sido motivo para guerra - embora uma minoria muito seleta pense deste modo e, bom, está aí a problemática da trama.


Nada de muito novo acontece nesse meio-termo do enredo que segue a risca a já conhecida jornada do herói, que consiste em toda uma sequência de altos e baixos até atingir seu objetivo: a inovação do longa vem mais pela ambientação, em um contraste de subaquático e desértico que encantam os olhos, mesmo nas cenas de computação gráfica de altíssima complexidade muito bem executadas, além das incríveis lutas excepcionalmente coreografadas, coisa que a DC tem melhorado e muito nos últimos filmes. A fotografia é sem igual, com destaque para os semi-perfis de costas do protagonista.

Em sua melhor representação da masculinidade máscula, com cabelos ao vento, barba de dar inveja em muito marmanjo, músculos a dar e vender e a famosa personalidade dura, mas ainda gentil, o personagem ganha um toque de endeusamento que é muito frequente nos personagens da DC Comics, vide o de Superman de Henry Cavill e a Mulher-Maravilha de Gal Gadot (e com exceção do esguio Flash de Ezra Miller, de apelo mais cômico e representatividade de uma nova geração de heróis no cinema, até). Mas tem uma mulher em cena que bate de frente com a predominância masculina, de intensidade tão fenomenal que surpreende até o protagonista god-like: Mera.


Interpretada por Amber Heard (London Fields), a ruiva ("você tem que amá-las") é representada como um misto de garota problema e guerreira rebelde a la General/Princesa Leia, e igualmente recusa o estereótipo da donzela indefesa, seja por sua aparência, que chama atenção só por entrar em cena com seus cabelos vermelho-brilhantes e vestimentas exuberantes, como por sua personalidade forte, destemida e extremamente honrável. Fica a vontade de vê-la lutar ao lado de Gadot em um quase impossível Liga da Justiça 2.

O mais interessante de colocar Mera e Arthur lado a lado é a dinâmica quase natural que surge entre os personagens: embora de mundos diferentes, compartilham a mesma ambição de unirem seus povos, e a união de duas forças épicas não poderia trazer outro resultado se não cenas tão incríveis quanto. Mas se lutando juntos já são bons, o desenrolar de uma amizade - ou algo a mais - é ainda melhor, com o encontro de suas personalidades carismáticas que trazem um tom cômico ao filme, porque adoramos longas de herói com toque de comédia romântica (vide Homem-Formiga e a Vespa).


E aproveitando a citação a outro filme, vale ressaltar o quão intertextual essa obra de James Wan é: o longa é metalinguístico, sempre citando outras narrativas cinematográficas, como Pinóquio, em um referência maravilhosa e explícita, Clube da Luta (quebrei a regra!), ou mesmo a subjetividades por semelhança, como uma cena em especial (sem spoilers) que, a mim, remeteu a Viagem ao Centro da Terra.

Há ainda uma sequência subaquática que isolada do restante do filme facilmente poderia se passar por um spin-off de Star Wars em um oceano muito, muito distante. Como fã assumida da saga, achei interessante a proposta com personagens de aparências extraordinárias que poderiam facilmente entrar como alguma raça alienígena da trilogia prequel - e isso é um elogio -, criaturas como naves e batalhas épicas armadas a muita ficção científica. 


Com trilha sonora assinada por Rupert Gregson-Williams já conhecido da DC por seu trabalho em Mulher-Maravilha. Everything I Need, na voz de Skylar Grey, ganha destaque enquanto narra a complexidade dos relacionamentos proibidos pelas diferenças, mas que a resposta está em seu coração. A playlist completa pode ser conferida diretamente pelo YouTube da WaterTown Music.

Em conclusão, Aquaman foi o filme do ano - sem desmerecer outros lançamentos icônicos da empresa ao lado. O modo como o longa consegue contar incansavelmente a história de Arthur Curry, com tons de aventura, drama, comédia e ação e ainda se conectar com o universo cinematográfico que representa sem se tornar caricato é no mínimo surreal. Saio da sessão com a sensação de missão cumprida só por tê-lo assistido, mas ainda não consigo determinar se foi igualmente bom ou superior a Mulher-Maravilha, dos mesmos estúdios. Só o tempo dirá, mas até lá uma sequência seria muito bem-vinda.

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