Caixa de Pássaros: as diferenças entre o filme e o livro (com spoilers!)

by - janeiro 08, 2019


Caixa de Pássaros, livro de Josh Malerman, foi publicado no Brasil em 2015 mas o auge de seu sucesso veio no ano passado, em 2018, com o lançamento de sua adaptação fílmica pela Netflix, que optou por manter o título original em inglês, Bird Box. Em um mundo pós-apocalíptico, Malorie (Sandra Bullock) e seus dois filhos pequenos lutam pela sobrevivência de olhos vendados no qual qualquer espiadinha pode ser fatal.

Ambas obras trazem uma linha não-cronológica, com os acontecimentos sendo narrados de forma intercalada entre o passado, quando quatro anos atrás o incidente apenas se iniciava, e o presente, com uma perigosa viagem à cegas por um rio. Mas como sabemos, por mais fiéis que adaptações sejam, algumas diferenças acabam surgindo entre as duas versões. 

Logo no início, repara-se a primeira delas: o filme começa um pouco mais adiantado que o livro. Na obra original, Malorie descobre-se grávida enquanto o incidente é apenas um burburinho internacional, intangível, e ao lado da irmã, Shannon, lidará com os primeiros três meses de gestação enquanto o mundo aprende sobre os perigos iminentes e de origem desconhecida - no filme, ela já esá com um barrigão quando as coisas começam a sair de controle.


Com isso, no filme a morte da irmã acaba sendo muito precoce, em apenas poucos minutos de tela. Não que seu destaque na obra literária seja muito maior, mas há uma maior noção de como funcionava a interação entre as duas, o quanto uma amava a outra mesmo com suas diferenças. O modo como ela falece também muda: no livro, ela é encontrada morta no banheiro após ter espiado janela afora, enquanto no filme as duas voltavam de uma consulta médica e, após abandonarem o carro em uma tentativa de sobrevivência, Shannon caminha em direção a um caminhão e, consequentemente, a sua morte.

Com isso, o destino de Malorie também é diferente: no filme, é uma grávida indefesa que caminha perdida pelas ruas após ver a irmã cometer suicídio e acaba por ser amparada por uma jovem e levada em segurança para uma casa com outras pessoas, enquanto no livro ela vai intencionalmente a um abrigo anunciado no jornal. As pessoas encontradas lá são, basicamente, as mesmas, embora suas características físicas variem entre as obras, mas isto é pouco ou nada relevante para a narrativa em si.

O que é de extrema relevância, entretanto, é o modo como a maternidade de Malorie é retratada de formas tão diferentes entre as obras. Na versão da Netflix, a protagonista vive em negação quanto a sua gravidez, evitando o assunto de forma até mesmo grosseira, recusando-se a aceitar que em breve será mãe. Já no livro, ela parece aceitar perfeitamente sua condição desde o começo, demonstrando preocupação com o filho a caminho, o interesse em livros sobre bebês e o desejo de falar sobre isso, como em suas conversas com Olympia, a outra gestante do abrigo. 


Desta forma, o livro e o filme invertem papéis após o nascimento das crianças: quando no filme Malorie tem seu coração lentamente amolecido pelas crianças, revelando um lado maternal que ela própria jamais poderia imaginar, o livro mostra uma mulher que precisa ser muito mais dura do que gostaria, mas somente porque sabe que isso será necessário para que estas crianças sobrevivam em um mundo tão cruel.

Assim, o livro nos mostra com maior ênfase que as crianças são treinadas desde o nascimento, com detalhes a sua dura criação, a perda da infância e como Malorie se sente culpada e uma péssima mãe por isso, embora fosse necessário. Em contraponto com o filme, ela não fica em dúvida de qual criança mandar olhar durante a viagem de barco: como é mais maternal na versão original, sequer cogita tirar as crianças de segurança. A Malorie do filme aprende esse sentimento de última hora.

Também é importante ressaltar que Tom não esteve presente na vida das crianças na obra original: ao contrário do filme, no qual o personagem é morto pouco antes de se iniciar a jornada pelo rio, no livro Tom deixa este mundo muito antes, quatro anos atrás, enquanto Malorie está em trabalho de parto de um garotinho e Gary, um homem em seus 40 anos que enganou a todos para ficar na casa quando já estava "contaminado", faz todos abrirem os olhos e resultou na morte geral, exceto de Malorie e das crianças: com Olympia morta, assume a maternidade de sua filha, uma indefesa menininha.


Sendo assim, as crianças nunca tiveram uma figura paterna no livro, enquanto no filme Tom se revela importante para amenizar a severidade da criação de Malorie com suas alusões a um futuro tranquilo, onde tudo voltará a ser normal e os pequenos conhecerão o céu. As crianças do livro desconhecem tais sonhos, mas foram muito bem criadas pela mãe para identificarem sons do mundo exterior, com ouvidos de capacidade quase sobrehumanas.

Entretanto, a morte precoce de Tom nunca o afastou dos pensamentos de Malorie, que carregava suas frases esperançosas e seu otimismo a cada dificuldade que surgia em seu caminho, e não foram poucas. No livro, a viagem de barco é bem mais turbulenta e dramática: Malorie é atacada por um lobo e chega a desmaiar, deixando as crianças a mercê de si mesmas por alguns momentos enquanto recupera a consciência. Ao acordar, o desespero materno toma conta de si, sem contar que a todo o momento ela sente que está sendo vigiada por Gary, o único corpo que nunca foi encontrado após a destruição de sua casa no dia em que deu a luz.

Outro elemento dramático que foi cortado do filme é a presença dos cães: no original, um dos personagens possui um cachorro em casa e, após algum tempo, acabam decidindo adotar mais dois para garantir a segurança do local, acreditando em seu poder de alerta e, de certa forma, em sua imunidade - o que se prova uma crença errônea. Estes animais são bem cuidados, mas não estão imunes da crueldade que este universo preparou, e é extremamente apavorante ler o que acontece com eles. Ver, então, seria impossível. Graças a Deus foi cortado do roteiro cinematográfico.


Mas o filme inventou outra forma de colocar os animais em ênfase quando os pássaros utilizados como alarme em casa são levados para a viagem de barco, ao contrário do livro que sequer cita o desfecho das pequenas aves. No original, entretanto, outros pássaros marcam presença durante a viagem, retomando mais uma vez a dramaticidade dos animais também serem vítimas desta atrocidade.

Após tanto sofrimento e diferenças entre as obras, o desfecho apresenta-se de forma bem tranquila e semelhante: em ambas versões Malorie e as crianças chegam com vida à escola para cegos que atua como um abrigo autossuficiente no qual todos têm uma chance melhor de sobrevivência. As crianças, até então chamadas de Garoto e Menina, tiram as vendas ao ar livre pela primeira e ganham nomes em homenagem aos personagens que mais marcaram a jornada de Malorie: Tom e Olympia. Emocionante, seja no livro ou no filme.

As duas obras são extremamente excelentes e julgo desnecessário avaliar qual versão é melhor: cada qual traz, em suas diferenças, atrativos e plots que não seriam desenvolvidos na outra, embora a narrativa central seja a mesma. Dessa forma, as duas obras conversem entre si em uma relação de semelhança e diferença que são igualmente boas e merecedoras de serem conhecidas. Sim, vale muito a pena tanto ver o filme como ler o livro, e fazer os dois lhe dará uma experiência completa dessa aventura aterrorizante.

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