Capitã Marvel é o filme que nós, as heroínas da vida real, merecemos e amamos

by - março 10, 2019


A espera acabou: Capitã Marvel chegou com tudo aos cinemas brasileiros na última quinta-feira (7). No filme, a personagem é introduzida ao Universo Cinematográfico da Marvel após 20 outros longas, revelando não só o passado da heroína, mas de toda a Iniciativa Vingadores e dando ao público uma nova esperança para Vingadores: Ultimato, esperado para estrear em abril. 

Em um retorno aos anos 90, acompanha-se como Vers, uma guerreira confusa sobre sua própria origem, aprende mais sobre si mesma e sobre o universo em que vive quando uma parada acidental na Terra coloca em cheque tudo o que sabia - ou ao menos pensava saber. Sem suas memórias, aprendemos junto da personagem sobre a sua verdadeira identidade: Carol Danvers, uma piloto que já era muito foda mesmo antes de adquirir superpoderes.


Como essas revelações vão sendo dadas ao longo da história, o filme não segue uma cronologia muito linear, e isso é ótimo pois equipara os conhecimentos do público ao da protagonista, permitindo que nos surpreendamos com as novas informações tanto quanto a personagem. Sem contar que quebra com o roteiro padronizado de filmes introdutórios, geralmente iniciados com o herói ainda criança que forçam um cansativo desenvolvimento até o auge de sua vida: Capitã já começa com pancadaria.

Isso não nos priva, entretanto, de visitar a infância da personagem: só mudou a ordem em que elas irão ser colocadas na montagem do filme. No passado, suas quedas e fracassos só provam sua humanidade, independente da superforça posteriormente adquirida, e torna-a extremamente relacionável para as heroínas da vida real que formam o público do longa. Carol Danvers é o espelho das mulheres de todo o mundo que sofrem preconceitos diários apenas por serem mulheres, que têm suas vidas dificultadas apenas por serem mulheres, mas que se levantam cada vez mais fortes e determinadas após cada tombo.


É um filme feminista, sim, e temos muito a aprender com sua mensagem: não falamos só quanto a força e independência da protagonista, mas principalmente em relação aos seus opostos, ou seja, dos momentos de fraquezas e da dependência no próximo, nos quais a personagem se torna mais realista e sincera, reforçando a ideia de que a nossa verdadeira força está nas nossas decisões e atitudes. Que a nossa força está em como nos relacionamos com nós mesmos e com as pessoas ao nosso redor.

Cada comentário negativo a respeito dos debates de gênero abordados na obra só reforçam a mensagem de que precisamos, sim, continuar a bater nessa tecla até que o homem médio (e nerd) aprenda a nos respeitar, a respeitar nossa história e a respeitar nossas conquistas: doa ao preconceituoso que doer, teremos mais mulheres a frente de filmes de ação, sim, e elas não estarão em roupas coladas e decotadas para satisfazer as necessidades sexuais do público masculino, mas que vão se sujar e bagunçar o cabelo em lutas, sim, porque estamos cansadas de sermos objetificadas.


O filme consegue trazer elementos que chegam a relembrar outras sagas populares como Star Wars, pelas naves especiais e perseguições arrepiantes com as mesmas, e até mesmo a uma pegada ao estilo Star Trek com as disputas e diplomacias entre raças de planetas distantes, com um humano intermediário, mas é sem sombra de dúvidas um filme da Marvel, principalmente pelo tom adotado pela narrativa.

É fácil de sentir que o longa transmite aquela marca cômica da Marvel, inserida tanto nas relações entre os personagens como em alguns momentos do roteiro que poderiam ser contados de forma séria e dramática, mas opta-se por fazer graça e arrancar boas risadas do público, muitas delas envolvendo Fury e Goose, o "gato" da heroína, que revela-se mais importante que o imaginado para a trama.


Para quem, assim como eu, não teve contato com as HQs, será um prazer descobrir mais sobre este personagem que, em primeiro momento, aparenta ser só um alívio fofo para a trama: mas a Marvel nunca colocaria algo por acaso nos filmes, não é mesmo? Sempre há um motivo maior por trás da inserção de cada elemento de suas tramas. Mesmo nos elementos mais fofos como um pet.

A ambientação também é digna de aplausos: trazer anos 90 de volta foi um trabalho levado minimamente a sério pela equipe que trabalhou não só nos cenários e utensílios da época, como o retorno dos pagers há tanto tempo desaparecidos, como também no vocabulário, a cada gíria ressuscitada, na trilha sonora, com sucessos como Whatta Man, do Salt-In-Pepa, e até mesmo a uma repaginada no visual dos atores Samuel L. Jackson e Clark Gregg, digitalmente rejuvenescidos. 


Outro dos pontos altos do filme é o modo como o mesmo dialoga com os outros projetos da Marvel, revelando informações sobre Nick Fury, agente Coulson e os Vingadores que, até então, só habitavam a imaginação de quem acompanha o MCU, como se os estúdios estivessem afirmando a seu público que, mesmo depois de vinte filmes, ainda há muito a ser contado.

Como esperado, Capitã Marvel ainda prepara terreno para Vingadores: Ultimato, mesmo que os filmes sejam cronologicamente separados por três décadas. O principal elo entre essas diferentes épocas faz-se presente em Fury, umas das figuras de maior autoridade dentro da atual linha do tempo da Marvel, e na cena pós-crédito que só assistindo para saber - blog spoiler free!


Divertido e sério nos momentos certos, com uma boa mensagem, dando uma excelente continuidade ao "selo Marvel de Qualidade" e ainda capaz de entregar detalhes inusitados sobre o MCU para os fãs do universo, o filme é uma boa pedida para os fãs do estúdio, mas também pode ser curtido como um projeto isolado para quem estiver disposto a curtir uma boa e empoderada narrativa sobre força e persistência

Gostaria de tê-lo visto ainda quando criança, mas me alegra saber que uma nova geração de garotinhas irá crescer com filmes da Capitã Marvel, Mulher Maravilha e outras heroínas que as representarão nos cinemas, dando exemplos de força, perseverança, dedicação, compaixão, respeito e, principalmente, de amor próprio. Filmes como esses que nós, mulheres, esperamos, merecemos e amamos.

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