Noir x Redes Sociais: uma crítica de Sunmi a falsa perfeição e dependência digital

by - março 08, 2019


Sunmi tem uma carreira muito estável na Coreia do Sul: ex-integrante do Wonder Girls, um dos grupos femininos de maior importância para o K-POP, e atualmente uma das cantoras solo de maior relevância na cena musical do país, e usa sua credibilidade na indústria para produzir músicas muito artísticas e com críticas necessárias. Em seu mais recente trabalho, Noir, o foco é uma crítica aos "attention seekers" das redes sociais, fruto de uma sociedade moderna e integralmente conectada.

Um "Attention Seeker" é, em português, um "Caçador de Atenção", ou seja, uma pessoa que fará de tudo para não só chamar a atenção das pessoas, mas manter os holofotes sobre si - mesmo que isso custe a criação de uma imagem que não seja a sua verdadeira, com uma "persona" que vive em troca de likes e compartilhamentos, completamente dependente de sua imagem digital e das reações públicas referentes a mesma, ignorando as consequências na "vida real".


A música, mesmo com sua letra em coreano, torna-se de fácil compreensão graças ao vídeo muito bem produzido que demonstra, a cada cena, o cotidiano de um attention seeker, expondo situações fakes e constrangedoras, mas cada vez mais frequente entre os usuários de mídias sociais - principalmente do Instagram, onde todos aparentam ter uma vida perfeita.

Segundo a própria artista em entrevista recente ao Melon, relevante portal sul-coreano, a ideia para este conceito veio durante suas férias após as promoções de Siren, seu último single, quando Sunmi aproveitou para assistir a vários filmes. "Durante esse tempo eu assisti a filmes Noir. Eles são sombrios e me fizeram pensar sobre como as redes sociais são os filmes Noir da atualidade", comenta.


Nos cinemas, "film noir" é uma expressão francesa que denomina um subgênero de filmes policiais com influência do expressionismo alemão, neo-realismo italiano e do realismo poético francês, caracterizados pelo baixo orçamento, participação de atores desconhecidos, cenários bem elaborados e em ambientes urbanos, personagens ambíguos, paranoicos, fatalistas, dramáticos e niilistas - que não veem sentido na existência.

Com essa descrição, relaciona-se aos attention seekers digitais que, em geral, são pessoas comuns que não aceitam a banalidade de suas vidas e buscam meios de dramatizá-la nas redes sociais, criando uma personagem e inserindo-a em cenários "aesthetics", segundo a expressão do momento para descrever algo bonito e digno de ser publicado nas redes sociais, mas que nem sempre representam a realidade, e sim um recorte de um momento criado apenas para ser exibido. 


No clipe de Sunmi, tudo fica muito visível conforme a cantora também se coloca como atriz, em uma personagem viciada em redes sociais que sente a necessidade de exibir-se constantemente. O vídeo, muito bem dirigido, mostra os bastidores até então desconhecidos de como essas imagens são montadas, como um campo florido que, na verdade, revela-se uma planta em um banheiro, ou uma caixa de areia na sala de estar que se passa pelas Maldivas. 

Além das montagens absurdas, apresenta ainda os fatores de risco a qual, muitas vezes, estas pessoas se submetem somente para terem uma boa história para contar/mostrar, como quando um carro em chamas se transforma no plano de fundo perfeito para fazer um stories sorridente no Instagram e fingir estar sempre feliz, independente da situação. O perigo é insignificante perto da necessidade de se alimentar da atenção pública.


Trata-se, também, de uma necessidade em não ficar de fora das tendências: não postar um vídeo brincando de apontar uma faca entre os dedos, recusar o desafio do balde de água, não vestir orelhas de coelho para selfies nas redes sociais ou deixar de enviar corações com os dedos para seu público é o mesmo que pedir para ser deixada de lado dos ciclos de atenções, enquanto os unfollows e dislikes podem levá-los a crises de ansiedade, representando verdadeiras feridas para os attention seekers digitais, como representado na cena acima com band-aids por todo o corpo.

Trazer essa visão realista e crítica de como as coisas são de verdade por trás de uma persona perfeita nas redes sociais é essencial para concluir a mensagem do clipe, revelando até que ponto essas pessoas podem chegar para conseguir atenção e, simultaneamente, criar uma espécie de conscientização entre seu público.


Tornam-se relevantes, portanto, as cenas de decadência da personagem da trama do vídeo, no ápice de sua loucura por likes e seguidores, chegando a machucar-se de verdade e sequer parecer se importar com isso, pois a perda de um seguidor parece doer mais do que a perda de um dedo. Com cenas chocantes dos momentos de queda da figura pública, a cantora convida o público a repensar suas prioridades digitais e seu comportamento nas redes sociais.

A artista comenta, ainda, que há muitas razões por trás de uma pessoa querer tanto ser o centro das atenções. Muitas vezes, segundo Sunmi, pode ser só porque elas se amam, ou então porque elas querem gritar algo como "Ei! Eu estou aqui! Eu estou viva!" para que o mundo as note e não se transforme em uma figura invisível. A questão é que, independente do motivo, há outras formas menos nocivas de marcar seu espaço no mundo.


Sunmi se recusa, entretanto, a cair em um cenário de hipocrisia: na mesma entrevista ao Melon, a cantora confessa que considera a si mesma como uma Attention Seeker: "Obviamente eu me acho uma porque eu sou uma pessoa do entretenimento. Eu sempre preciso de atenção. Eu sou uma pessoa que tem fome por atenção", revela. 

A cantora atualmente está em uma turnê mundial, passando neste momento pelos Estados Unidos, e não promoverá a música nos shows musicais semanais como de costume para os artistas musicais da Coreia do Sul. Durante seu show mais recente, em Los Angeles, nessa quinta-feira (07), comentou que irá lançar um novo álbum entre os meses de junho ou julho. Vindo dela, já podemos esperar uma nova incrível produção.


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