Loja de Unicórnios: uma metáfora para a felicidade, com Brie Larson

by - abril 09, 2019


Estreou na Netflix na última sexta-feira (05) o mais novo filme original do serviço de streaming, Loja de Unicórnios, dirigido, produzido e protagonizado por Brie Larson, popular atriz californiana que, com apenas 29 anos, já está conquistando o mundo com seu talento e versatilidade em filmes como O Quarto de Jack (2015) e Capitã Marvel (2019). Neste seu mais novo projeto, um drama metafórico guia seus espectadores a uma reflexão: o que é o seu unicórnio?

Para Kit, personagem de Larson, seu único desejo da vida é ter um unicórnio. Embora saiba - ou finja saber, por pressão da sociedade - que eles não existem, agarra-se a uma última esperança quando o misterioso O Vendedor aparece com A Loja e a possibilidade de tornar este sonho realidade e trazer um pouco de felicidade à vida desta jovem artista frustrada que se sente uma decepção para seus pais. Para isso, precisará provar suas habilidades de prover uma boa vida ao iminente unicórnio, ganhando uma motivação para sair do sofá e se aventurar além de sua zona de conforto.


O filme, todo trabalhado em perspectivas metafóricas sobre a vida, a felicidade e o modo como encontramos (ou não) felicidade em nossas vidas se encarrega de fazê-lo repensar suas prioridades e tarefas cotidianas com tamanha encantadora poesia que, como tal, não deixa de ser um pouco confusa, exigindo de seu público certa sensibilidade e concentração ao momento, a fim de absorver todas as pequenas informações jogadas sob muitos panos.

Poesia tal que transparece ainda para o plano visual da trama, envolvendo-se na fotografia e ambientação que aproximam o público de uma atmosfera de sonho, colorida e romântica. A estética do filme brinca com o arco-íris, muito intrínseco ao conceito dos unicórnios, entregando uma dualidade entre tons fortes e chamativos muito presentes para demonstrar força e autoridade, por exemplo, assim como tons pastéis que trazem maior sutilidade a momentos de calmaria. Rosa, lilás e azul claro conversam e se dão bem entre si e com os demais elementos da narrativa. 


Os diálogos, por sua vez, são deveras teatrais, assim como o enredo exageradamente fantástico a fim de comoção. Entretanto, estes pontos normalmente considerados frágeis, quando bem trabalhados, como neste longa, tornam-se os destaques positivos da narrativa - atrelados a excelente atuação de seu elenco, com créditos a Samuel L. Jackson, magnifico, e Mamoudou Athie, cativante. É uma obra pouco convencional, absolutamente, e pode despertar muitas estranhezas, mas está longe de ser um filme fraco. Em qualquer aspecto a ser avaliado.

Trabalhado ao lado da felicidade, o filme narra ainda sobre conceitos de maturidade para fora de seus estereótipos, quebrando um tabu de "infantilidade adulta" muitas vezes relacionado a, por exemplo, gostos por desenhos animados, paladar seletivo e instabilidade financeira. Além de Kit, as personagens secundárias da narrativa, cada qual com sua peculiaridade, nos guiam a uma percepção sobre a pluralidade da vida adulta e de como ela se manifesta de diversas formas, em diversos tempos.


Com essa introdução fílmica, só resta a nós percebemos que ser adulto nada mais é do que um conceito ultrapassado de obrigações impostas por gerações e que não mais precisamos nos deitar sobre elas. Que temos responsabilidades, sim, e que devemos arcar com elas, mas que não podemos nunca, jamais, nos esquecermos de nossos sonhos, de nossos desejos, de nossas almas, das coisas que fazem de nós humanos, que nos fazem querer viver sempre mais. De volta ao conceito de motivação: para Kit, o unicórnio é sua motivação. Qual a sua? Não precisa pensar em uma resposta agora. Tome seu tempo. O tempo que precisar.

Assistir a este filme, especialmente no início da vida adulta onde tudo ainda parece tão confuso e sem boas perspectivas, é um banho quentinho seguido de uma confortável massagem que nos deixa mais relaxados. Que tira um peso dos ombros. Um bom e reconfortante filme para ser visto em momentos de soturnidade, de solidão, de desorientação - ou simplesmente para apreciar o talento da singular e esplêndida Brie Larson a frente, mas também atrás das câmeras.


Como canta Dulce Maria:

No pares, no pares, no
No pares nunca de soñar
No pares, no pares, no
No pares nunca de soñar
No tengas miedo a volar
Vive tu vida.

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