Sem Coração: o passado da Rainha de Copas e a importância das perspectivas

by - agosto 14, 2019


Marissa Meyer já é um nome conhecido nas releituras de contos de fadas por Crônicas Lunares e seu livro de 2016, Sem Coração, nos leva de volta ao País das Maravilhas para conhecer o doloroso passado de Catherine Pinkerton, hoje conhecida como a Rainha de Copas, sob uma perspectiva nunca antes imaginada: ela já foi alguém amável apaixonada e sonhadora.

Semelhante ao trabalho nos filmes da Malévola, por exemplo, tem como ideia desconstruir sua imagem de vilã ao apresentar um lado mais humanizado da personagem, antes de seus sonhos e ambições a corromperem para o mal.


Dessa forma, visitamos o dia a dia da jovem filha do Duque do Recanto da Pedra da Tartaruga que estava destinada a se casar com o rei, mas queria mesmo era abrir uma confeitaria com sua melhor amiga e viver um romance com Jest, o bobo da corte.

Para deixar a história ainda mais emocionante, entra em cena o Jaguadarte e os segredos que habitam o outro lado do espelho, com um toque de mistério, aventura e nonsense, a marca registrada deste encantador e absurdo universo ficcional.


Embora já saibamos o desfecho da história, considerando os acontecimentos de Alice no País das Maravilhas, póstumos aos narrados nesta obra, é impossível não fechar os olhos para o conhecido e se deixar levar pelos "e se..." a cada possibilidade aberta pela narrativa.

Além da Rainha, outros personagens já queridos dos leitores de Lewis Carroll fazem-se presentes na obra, como o Chapeleiro, o Coelho Branco, Mariane e o próprio rei. Todos eles são essenciais para que a história seja construída com certa fidelidade e respeito à obra original, além de cooperar com a exploração deste novo ponto de vista de Wonderland.


Neste sentido, conforme Cath se aproxima de seus sonhos e objetivos com a ajuda de seus novos companheiros, mais parece se afastar do destino de Rainha Vermelha, revelando a autonomia criativa da autora em um enredo divertido e romântico, mas ainda tenso.

Revelam-se na jovem Cath alguns traços já descritos por Carroll há um século e meio, como o amor por tortas e confeitaria, enquanto outros se revelam enquanto a doce personagem de Meyer é transformada na amarga Sem Coração.


O livro, embora não canônico ao universo do País das Maravilhas, apresenta com muita honra e glória uma verdadeira caracterização (ou descaracterização?) de uma personagem corrompida pela dor, pela perda e pela vingança.

Nos leva, ainda, a pensar sobre como somos passíveis a mudanças: o que antes era branco pode se tornar vermelho, sonho em pesadelo, amizade em desprezo, compaixão em impiedade. Uma pessoa de coração grande, de bons sentimentos, em uma criatura antipática, fria, Sem Coração, com letras maiúsculas.


Com tradução da incrível Regiane Winarski e um trabalho gráfico maravilhoso, com capa de Sharon King-Chai, o livro é um must-have para os fãs de Alice no País das Maravilhas e de contos de fadas em geral, com seu impressionante enredo sobre como devemos buscar ver além do superficial e entender os dois lados de um espelho, de uma história. Sobre a importância de analisarmos todas as perspectivas.

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