O Cemitério e a tormenta de um luto reprimido

by - setembro 08, 2019


Em 1983 Stephen King lançava "O Cemitério", romance de terror que viria a se tornar um dos melhores e mais relevantes de sua vasta obra. Ainda na década de seu lançamento foi adaptado para os cinemas, em 1989, e recebeu uma nova versão fílmica neste ano de 2019. Embora as diferenças entre as três versões da obra, todas abordam o mesmo tema: a tormenta de um luto reprimido.

No livro, a família Creed acaba de se mudar para a pequena cidade do Maine. Com uma perigosa estrada de caminhões a frente e um misterioso cemitério de animais ao fundo da casa, forças estranhas e histórias macabras sobre bichos que voltaram à vida mexem com a sanidade de Louis - e a tentação de ressuscitar um humano por estas terras, onde não há limite entre a vida e a morte.


O luto é o grande fio condutor entre os personagens e os acontecimentos da narrativa. Começa com a esposa, Rachel, e as feridas não curadas da dolorosa, embora aliviadora, morte de sua irmã, transformando o óbito em um assunto tabu não só para ela, mas a toda a sua família, em uma tentativa falha de fuga do sofrimento: como evitar o inevitável?

Nem mesmo Louis, até então metodológico para temas funerários, médico, escapa da complexidade do assunto quando a conveniência de não causar dores a suas amadas, cruzando as fronteiras do certo e do errado, do mundano e do sagrado, indo além do direito dos homens de intervir no mundo dos mortos por um "bem maior" que teria um alto custo.


Custo qual ainda maior, acompanhando o tamanho de sua intervenção: pesadelos, aparições sobrenaturais, sensação de perseguição, forças seduzentes a novos pecados; morte atrás de morte, consecutiva e consequentemente, vítimas de um sinistro faminto e ganancioso que busca sempre mais corpos a seu cemitério, devolvidos ao mundo com a ilusão de uma vida que não passa de um semimorto quebrado, mas satisfaz aqueles que reprimem seu luto, que negam a morte - a única certeza da vida.

A cada etapa de uma crescente tormenta vivida pelo protagonista, Louis, a obra de King retrata que "às vezes, estar morto é melhor", em empréstimo ao slogan de divulgação do filme recente, mas que precisamos aceitá-la. Deixar de tratar a morte como um tabu para podermos lidar com os fúnebres sentimentos consequentes e inevitáveis, mas remediável.


Entretanto, uma mágoa não dialogada não se cura. Neste sentido, King aborda a necessidade de expormos nossos sentimentos, de conversarmos, de nos abrirmos, de deixarmos de reprimi-los. Ignorar sua presença não o faz desaparecer, mas sim buscar ajuda, permitir-se ao conforto e ao alívio em desabafar, em compartilhar sua dor até que ela se torne algo com o qual se possa conviver.

Com esta obra, Stephen King continua com seu exímio trabalho de traçar belas narrativas sobre o psicológico humano, muito mais assustadoras que qualquer aparição espírita que possa ter em seus textos. O terror de King é muito mais ligado ao mental que ao visual, o que torna sua arte única e lhe dá o merecido título de Mestre.


Publicado no Brasil pela Suma de Letras, selo da Companhia das Letras que é responsável por grande parte da obra de King no país, teve sua 14ª impressão lançada no início de 2019 com a capa original e sobrecapa removível do filme, opção perfeita para aqueles que não sabem qual edição comprar.

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