Uma Dobra no Tempo tem um visual estupendo, mas decepciona no enredo

by - abril 01, 2018


Dirigido por Ava DuVernay e produzido pelos estúdios Disney, Uma Dobra no Tempo narra a jornada dos irmãos Meg (Storm Reid) e Charles Wallace (Deric McCabe) em busca do pai, um cientista que desapareceu há quatro anos. Com a ajuda do colega Calvil (Levi Miller) e três senhoritas peculiares (Oprah Winfrey, Reese Witherspoon e Mindy Kaling), descobrirão que o caso é ainda mais misterioso e extraordinário do que esperavam e precisarão aprender muito sobre si mesmos para desvendar esse enigma.

O filme é baseado no livro homônimo de Madeleine L' Engle, publicado no Brasil pela editora Harper Collins. Infelizmente ainda não tive  a oportunidade  de ler a obra original, portanto não  possuo (palavra que esqueci) para dissertar sobre sua semelhança ou não com o conteúdo de Madeleine. Entretanto, pesquisas na internet levam a comentários que afirmam que é bem semelhante, mas cm algumas modificações na história dos personagens, como os gêmeos de Meg e Charles e uma nova abordagem a família de Calvin e até mesmo um mau proveito de sua personalidade, que tornou o personagem obsoleto no filme. Para maiores detalhes das diferenças, recomendo a leitura do texto de O Que Tem Na Sua Estante.


O principal forte do filme é a fotografia e a direção de arte. Em uma viagem interestelar por diversos planetas, conhecemos uma beleza estrangeira que jamais poderia ser vista na Terra, com cenários bem Disney e roupagens inovadoras, como se tivessem sido pensadas, e talvez seja a verdade, justamente para conquistar um Oscar na categoria. Os efeitos visuais, entretanto, são variantes, podendo ser fantásticos ou simplesmente toscos, com recortes visíveis e falhas no sombreamento. A paleta de cores é brilhante, mas consegue lidar com algumas cenas mais escura sem perder seu tom. Infelizmente, não soube driblar os pesos e a impressão que fica é de que o filme é mais focado na estética dos planetas e nos figurinos futurísticos no que no desenvolvimento da história.

Não sei se as coisas são do mesmo modo no livro, mas senti que a produção cinematográfica foi um tanto incompleta. Mais fantasia do que ficção científica, já era de se esperar que a questão das dobras fossem exploradas com menor profundidade, mas não esperava tanto descaso com o espectador. O cientista estudava o tesserato quando desapareceu, sendo esta uma forma de viajar até bilhares de anos-luz em questão de instantes, mas que acaba sendo explicada de forma superficial no filme, como se nem o próprio roteirista soubesse o que é esse tal de tesserato.


Sente-se ainda que faltou de fato uma relação entre os acontecimentos, o que fica óbvio quando o personagem Charles Wallace, que é o fio condutor de toda a história, um prodígio da ciência e dono de uma personalidade única, encontra-se cercado de vazios narrativos que não dão a devida complexidade para que você se apegue ao personagem ou a qualquer outro, inclusive a protagonista morna, de expressões rasas e plano de fundo fraco, que tem sofrido com a queda de seu status acadêmico quando, após o desaparecimento do pai, deixou de ser uma aluna exemplar e tornou-se alvo de bullying, odiada por seus colegas de classe, e responde às maldades com violência, causando ainda mais problemas a si mesma. Típico de filmes para o público jovem, nenhuma inovação.

O indício de romance não é nada natural e incomoda, mas o que mais deixa a desejar é o antagonismo, elemento essencial para o desenvolvimento de qualquer narrativa de mistério e aventura, que também se perde quando é chegado a Camazotz, um planeta de escuridão dominado por uma força maligna, por sua incapacidade de prender o espectador, já que este sequer consegue entender exatamente contra o que os personagens estão lutando e como foram parar nessa situação. Muitas perguntas para poucas respostas.


Com isso, toda a beleza do filme não consegue amenizar o quão difícil a trama é de se acompanhar. Uma Dobra no Tempo segue numa dicotomia que é muito desagradável para as produções audiovisuais: ainda que a trama seja muito rápida, com acontecimentos apressados e mudanças súbitas, é tudo muito brusco e excessivo que o filme se torna cansativo e deixa o espectador com a sensação de que a obra está sendo mais longa do que o esperado, se perguntando mentalmente se falta muito pra acabar - e, quando acaba, sente um certo vazio por não ter entendido direito alguns acontecimentos da narrativa, já que esta preferiu por ser tão dinâmica que deixou de lado algumas explicações e apresentações que talvez fossem necessárias para que o cliente voltasse para a casa mais satisfeito com o que havia assistido.

A trilha sonora, entretanto, não peca. As três principais canções da obra são Flower of the Universe, de Sade Adu, que transporta a narrativa por um lado mais sentimental e emotivo que, infelizmente, não foi muito bem apresentado e acaba se tornando superficial, porém com uma bela canção ao fundo. Demi Lovato e Dj Khaled ganham destaque com a faixa I Believe, que nos faz lembrar da época em que Demi e Disney andavam de mãos dadas, mas com o tom atual da cantora, já madura, como se estivesse olhando para seus sonhos de outrora. Magic, da Sia, encerra a trilogia principal ao adentrar no universo fantástico com sua voz única em faixa original para a produção audiovisual.


Já o time de atores fica dividido. Para o elenco adulto, grandes nomes como Chris Pine, Reese Witherspoon, Mindy Kaling e a grandíssima Oprah Winfrey, principalmente, destacam-se por sua popularidade e talento, entregando ótimas performances e carismas que combinam perfeitamente com seus personagens, enquanto o time mirim revela-se fraco, de reações forçadas e relações sem química. Problema não só de casting, mas de roteiro, com diálogos e monólogos pesados demais, que ultrapassam os limites do esperado para crianças como o pequeno Deric McCabe, de apenas nove anos, que entrega uma atuação divertida de se assistir aos primeiros minutos do longa, mas que se torna cansativa e forçada ao passar dos minutos.

Exagerada também é a mensagem do filme. Disney, como sempre, tenta dar boas lições para as crianças e jovens de acordo com as necessidades socioculturais do momento de lançamento de sua obra. Para encontrar o próprio pai, Meg precisará desenvolver em si mesma o amor próprio, empoderamento e se tornar uma guerreira pela esperança, mas o roteiro abusa da dose ao comparar a personagem com grandes figuras históricas como Gandhi ou Einsten, por exemplo. Se tinha algo para me fazer ficar emocionada, perdi neste momento. 


Mas se tem uma coisa em que o filme acertou em cheio foi na diversidade: Uma Dobra no Tempo estreou em 9 de março nos Estados Unidos e, apesar do pouco tempo em cartaz, conquistou no último fim de semana o importante título de filme dirigido por uma mulher negra de maior bilheteria nos Estados Unidos. Até então, o posto era de Herbie: Meu Fusca Turbinado, de 2005, com direção de Angela Robinson. Herbie faturou US$ 66 milhões em sua estreia nos EUA, enquanto Uma Dobra no Tempo ultrapassa a marca dos US$74 milhões.

Este é também o primeiro blockbuster a ser dirigido por uma mulher negra e o terceiro filme com orçamento superior a US$100 milhões a ser dirigido por uma mulher, sendo as outras duas diretoras Kathryn Bigelow com K-19 (2002) e Patty Jenkins com Mulher-Maravilha (2017). Uma conquista para as mulheres de todo o mundo que, a cada vez mais, marcam sua presença no mercado hollywoodiano. 


A Dobra do Tempo é, em geral, um filme legal. Não chega nem perto de ser o melhor - ou pelo menos um dos melhores - da Disney, mas também não é lá um desperdício de tempo. Você se sente perdido em certo ponto da história e é difícil recuperar a onda, mas possui algumas cartas na manga, como seu visual estupendo, para manter o espectador acordado, mas não surpreende em momento algum com um enredo nada inovador e desfecho previsível, morno. Poderia ter sido melhor, mas não foi perda total de dinheiro ir conferi-lo no cinema. Quem sabe melhore na continuação, hein, dona Disney? Se é que ainda teremos uma.

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