A importância da crítica à mídia coreana em Ddu-Du Ddu-Du e tristes exemplos da vida real

by - junho 18, 2018


O quarteto feminino Blackpink recentemente retornou ao cenário musical com o álbum Square Up, cuja faixa principal 뚜두뚜두 (Ddu-du Ddu-du) foi promovida com um vídeo clipe que não só esbanja riqueza e uma excelente produção gráfica, mas ainda ostenta de uma mensagem intrínseca em uma das cenas da membro Jisoo, que critica a mídia coreana que enaltece e idolatra as artistas femininas, mas que também são os primeiros a "apontarem suas armas" a elas com o primeiro deslize dado. 

Infelizmente, a crítica se valida na dura realidade quando, a cada instante, vemos uma ídolo feminina se transformando de estrela a vilã em um piscar de olhos, muitas vezes por motivo algum ou até mesmo por mal entendidos, mas que sujam seu nome, imagem e podem, em alguns casos, até mesmo acabar com suas carreiras. É preciso ser muito forte para ser mulher e viver do entretenimento na Coreia do Sul.


Como alguns exemplos, relembremos, primeiramente, Sulli. Nascida Choi Jinri, a garota foi conhecida por fazer parte do popular grupo F(x) entre os anos de 2009 até meados de 2015. Neste período, Sulli ostentou de uma imagem fofa, até mesmo infantilizada, promovida por sua empresa devido aos traços meigos da aparência da garota, mas que pouco condiziam com sua verdadeira personalidade.

Ao deixar o grupo, tornou-se mais ativa nas redes sociais e, agora, sem as "garras" da imagem de membro de um grupo feminino, podia ser ela mesma, mas a sua "nova imagem" não agradou aos fãs que, chocados com a "ousadia" da garota ao publicar fotos "polêmicas", com maquiagens propositalmente borradas ou sem sutiã, levantaram sua bandeira de ódio contra ela. Em maio de 2016, ela chegou a deletar seu perfil na rede social, mas logo voltou a utilizá-lo e hoje pode ser seguida em @jelly_jilli, sem censura.


Tiffany foi uma das grandes vítimas de 2016 quando, durante sua turnê com o SMTOWN Live World Tour V no Japão, publicou algumas fotos com suas amigas membros do Girls' Generation com a bandeira do Japão na legenda, comemorando sua presença no país para os shows que viriam, mas os fãs coreanos não deixaram barato devido a proximidade com o Dia Nacional da Libertação da Coreia, que marcava o fim da submissão coreana ao domínio colonial japonês. 

Na devida data, entretanto, Tiffany volta a receber duras críticas por, mais uma vez, envolver-se em problemas nas redes sociais ao utilizar um filtro da cidade de Tokyo em uma foto no Snapchat, para mostrar em qual cidade se encontrava. O problema, entretanto, estava na bandeira utilizada os gráficos do filtro: uma hinomaru, a bandeira do Sol Nascente Japonês, usada pelo exército imperial durante a expansão japonesa até a Segunda Guerra Mundial. 

Embora em pleno Dia Nacional da Libertação, tudo isso, entretanto, foi feito na inocência: Tiffany é estadunidense e foi educada na América do Norte, portanto, não teve a mesma educação que os coreanos que, desde cedo, aprenderam sobre período do domínio japonês e a cruel simbologia por trás da Hinomaru. As críticas acompanhavam comentários como "eu não quero mais vê-la na Coreia", "não importa se ela é americana ou se ela está no Japão agora, ela é uma cantora que trabalha na Coreia, ela é muito descuidada" e "ela trabalha na Coreia há mais de 10 anos e não sabia que era o Dia da Libertação Nacional? Como isso faz sentido?".

Tiffany havia acabado de lançar o seu primeiro álbum solo, I Just Wanna Dance, e foi cortada de comerciais e programas televisivos da Coreia. O âncora de um popular telejornal da MBN demonstrou, ainda, grande ato de falta de profissionalismo ao, após uma partida de badminton (uma espécie de tênis + vôlei) entre o Japão e a Coreia, parabenizar a Tiffany pela vitória do Japão no jogo. A emissora comentou, ainda, que não possuía intenção de se desculpar pelo que foi dito. 

Mesmo com todos apontados contra ela, em pedido de desculpas, Tiffany publicou a seguinte carta manuscrita: "Em um dia tão significativo, lamento que eu tenha feito todos se preocuparem com o meu erro. Nessa situação, minha supervisão desapontou muitas pessoas e me sinto envergonhada de mim mesma. Lamento profundamente pelo que fiz. No futuro, vou trabalhar duro e cuidar do que escrevo e como me comporto para que algo assim não aconteça novamente, além de pensar cuidadosamente antes de agir. Mais uma vez, peço desculpas pelas minhas falhas e pelo grande erro". Apesar do texto, as pessoas continuaram a virar as costas à cantora, questionando o peso de uma carta como se isto fosse resolver o erro que ela havia cometido.


Park Bom foi submetida a alguns procedimentos cirúrgicos ao longo dos anos e sua imagem foi muito denegrida pelo público, incluindo apelidos como "boneca de plástico" e "Barbie falsificada", além das inúmeras ofensas quanto a sua dificuldade em esboçar expressões. Bom sofre de inchaço nos gânglios linfáticos, o que faz seu rosto parecer maior e dificulta a movimentação da face e do pescoço, afetando, inclusive, a voz, por sua proximidade com a garganta. 

Tudo culminou, entretanto, com um escândalo de contrabando de drogas em 2014, o que revelou-se como medicamentos proibidos na Coreia, Adderall, que ela precisava importar ilegalmente para poder realizar o seu tratamento de TDA e depressão. Ela só falou sobre isso abertamente em abril deste ano, e você pode ler a entrevista completa traduzida no site da KoreaIN para entender o caso e conhecer um pouco mais sobre a jornada de Bom pré-2NE1 e seu sofrimento com as inúmeras doenças e transtornos.

Durante seu silêncio, entretanto, sua carreira foi destruída: Bom foi afastada de suas atividades individuais em programas televisivos e mesmo o 2NE1 ficou afastado da mídia, aparecendo somente uma vez, no MAMA de Hong Kong, em 2015, antes de seu disband oficial. Agora, Bom se prepara para retornar a carreira de cantora e pede o apoio dos fãs, mas, sobretudo, sua compreensão pela difícil situação a qual foi submetida. 


IU é a queridinha da Coreia, mas estar sempre presente na mídia a transformou em um alvo fácil para propagação de rumores e escândalos. Em 2012, a publicação de uma fotografia com Eunhyuk, do Super Junior, gerou uma grande controvérsia para ambos, mas seus problemas vão muito além de boatos românticos: 

Em 2015, quando promovia seu álbum CHAT-SHIRE, envolveu-se em grande polêmica de pedofilia pela faixa Zezé, inspirada no protagonista livro brasileiro Meu Pé de Laranja Lima, pela letra da música e, em uma entrevista, por descrever o personagem como sexy. Posteriormente, desculpou-se corrigindo: "Durante a entrevista, pretendi dizer que as principais qualidades de Zezé, não o jovem Zezé, são sensuais. Eu estava falando sobre a qualidade de sua dualidade, não à criança de 5 anos. No entanto, eu entendo e admito minha culpa ao usar a palavra "sexy" quando falo de uma criança de 5 anos."

O escândalo ocorreu próximo as datas de sua turnê nacional chegando e, um show que há poucos dias havia sido dado como esgotado, teve inúmeros lugares redisponibilizados para venda após fãs cancelarem a compra de seus ingressos previamente reservados, virando as costas a cantora e a seu show. O evento ocorreu sem novos inconvenientes.


Yeri era apenas uma adolescente de dezesseis anos quando juntou-se ao Red Velvet como integrante e nova maknae do grupo, mas não foi a sua pouca idade que a livrou da crueldade pública sendo, até hoje, renegada mesmo por alguns fãs e também pela mídia. Para alguns coreanos, principalmente, é difícil aceitar a adição de membros em seus grupos preferidos, mas este não é o único caso contra a garota que é vítima, ainda, por sua personalidade "selvagem" de não forçar reações, ser sempre ela mesma e expor suas emoções e opiniões.

Após o falecimento de Jonghyun, do SHINee, em dezembro de 2017, Yeri chegou a ser criticada até mesmo por estar de luto, com "fãs" que julgavam sua proximidade com o cantor e impuseram o quanto ela poderia sofrer por sua morte. No funeral, seu posicionamento a frente dos membros do Super Junior foi considerado um "desrespeito aos seniors" pelos netizens coreanos, embora os integrantes do SJ em nada parecessem incomodados com isso, independente da tristeza da garota e desejo de estar próxima de Jonghyun para sua despedida, sem em nenhum momento levar em consideração a dor que ela sentia. Não importa o motivo, sempre acharão algo para atacá-la. E sempre será algo ridiculamente desnecessário. 


Irene, também do Red Velvet, tornou-se uma vítima recentemente. A idol, até então adorada e idolatrada pelo público e, principalmente, pelos homens da Coreia do Sul por sua incrível aparência, "decepcionou" a nação após ter comentado estar lendo Kim Ji Young, Born 1982, um livro de cunho feminista que se tornou controverso no país por sua temática.

Foi só Irene falar da obra para esta subir ainda mais no ranking de mais vendidos da Coreia, enquanto Irene caía no "ranking de queridinhas dos coreanos" que, extremamente ofendidos, queimaram fotos da cantora afirmando que não poderiam continuar a apoiar uma artista sabendo que ela é feminista. Irene não chegou a comentar sobre o caso, mas na época foi vista extremamente cansada e para baixo, fazendo os fãs acreditaram que ela havia sido negativamente afetada pelos comentários anti-feministas.


Suzy, Seolhyun (AOA) e Naeun (Apink) também foram criticadas por demonstrarem apoio ao movimento feminista. Quando Yang Ye Won, uma youtuber coreana relatou na internet o abuso sexual que sofreu anos atrás, leia esta matéria do KoreaIN se não conhece o caso, a solista e atriz Suzy rapidamente demonstrou seu apoio ao promover, em suas redes sociais, um abaixo assinado em defesa da mulher.

Com isso, os anti-feministas da Coreia levaram o ridículo a um novo nível ao responderem com uma petição de pena de morte a artista que, há até poucos meses, era considerada "o primeiro amor da nação", tamanha sua popularidade entre os coreanos. A ídolo se defendeu, mas não voltou atrás em  seu apoio a youtuber. "Eu não queria deixar o caso passar em branco. Eu queria que mais pessoas se interessassem por essa questão e dessem atenção a ela para que isso pudesse ser resolvido da maneira correta. Isto não é sobre a vítima ser mulher. Isto nem sequer é sobre feminismo. Isso é de uma pessoa para outra, tomando ações. Eu posso ser imprudente em participar de tais coisas, mas isso é humanismo", afirma Suzy.

Em meio a esses escândalos, Seolhyun, a membro mais popular e querida do AOA na Coreia do Sul, resolveu "fazer a limpa" em quem seguia no Instagram, deixando de seguir aqueles que não retribuíram seu follow, como Iu, Yoo Ah In e Yoo Byung Jae, e passando a seguir Suzy, Luna, Amber e Shin So Yul, levantando controvérsias de que ela havia deixado de seguir celebridades que não são feministas ou demonstram comportamento machista, uma vez que todos os nomes citados estiveram envolvidos, positiva ou negativamente, com a temática recentemente. Independente de coincidência ou ato proposital, as proporções tomadas por uma ação tão cotidiana quanto dar unfollow em alguém só demonstra o quanto o público e a mídia desejam controlar até mesmo quem você segue ou deixa de seguir em suas redes sociais.

Naeun, que até então não havia se envolvido em nenhum escândalo ao longo de sua carreira de pelo menos sete anos, foi alvo de duras críticas por algo tão mínimo quanto o uso de uma capinha de celular que grafava "GIRLS CAN DO ANYTHING". A garota não só apagou as fotos como se defendeu publicamente, explicando que é uma frase comumente usada pela marca Zadig & Voltaire, que escreve em seu site: "Zadig é sobre celebrar essa força única, criatividade e potencial compartilhado por mulheres em todo o mundo. Acreditamos em nos unir e apoiar uns aos outros, e é por isso que estamos muito empolgados com essa coleção. Junte-se a nós e use seu coração na manga: porque acreditamos que quando as mulheres fortalecem outras mulheres, não há nada que possa nos impedir."


HyunA, vítima de slut-shaming, gíria que se refere a uma mulher como promíscua por violar as expectativas tradicionais machistas de comportamentos sexuais, vive em meio a ambiguidade do público: a garota que debutou como membro do Wonder Girls, posteriormente do 4Minute e hoje segue carreira solo é amada e odiada ao mesmo tempo.

Sua aparência nos palcos sempre foi um tanto polêmica, conforme suas músicas, principalmente no trabalho solo, tendem a mostrar um lado mais sensual que muitos julgam como vulgar, seja em termos de coreografia, letra ou figurino, mas ela não parece ser afetada pelos comentários negativos e busca sempre ousar mais e mais a cada lançamento musical. 

Após o fim do 4Minute, HyunA foi duramente criticada pelos fãs do grupo por ser a única integrante a ter seu contrato renovado com a gravadora, Cube, como se ela tivesse traído as demais e o grupo tivesse alcançado seu fim unicamente por culpa dela. Por incrível que pareça, embora todas as críticas a cantora continua indo bem nos charts e mantém uma alta popularidade entre ambos homens e mulheres.  

A artista, entretanto, sempre foi vista pelos fãs "mais abertos" como um ícone feminista por suas ações sem medo e/ou vergonha de demonstrar sensualidade e sexualidade em meio a uma mídia sexista que oprime as liberdades femininas. Devido a isso, foi eleita em 2018 como embaixadora da campanha Global Woman's Campaing, da Puma, que apoia a individualidade, igualdade, padrões de beleza desafiadores e o aumento da autoestima das mulheres. É possível dizer que HyunA preparou o terreno para que novas artistas coreanas pudessem agir de forma mais livre e natural, mas, como visto nos exemplos acima, a Coreia ainda não está preparada para isso.


As coisas estão, lentamente, começando a mudar: a manifestação recente quanto ao feminismo e direitos femininos, quebra de estereótipos impostos pela mídia e denúncias de abusos acompanha a força que o movimento feminista e o #MeToo tem recebido na Coreia do Sul nos últimos meses. Entender como machismo as flechas sempre miradas para a cabeça das ídolos femininas é dar esperança a uma sociedade equânime que ainda está distante de ser alcançada, mas que já pode começar a ser imaginada. 

É por isso que precisamos, cada vez mais, de artistas ousadas como o Blackpink que venham a utilizar a popularidade de seus trabalhos musicais para colocar estes assuntos em pauta. Questões socioculturais enraizadas, como esta, só podem perder seu status de tabu após muita conversa e discussão sobre o assunto, e em um país que se recusa a aceitar que vive de conceitos ultrapassados e misóginos, a força virá somente de dentro, estando na mídia para criticar a própria mídia até, não derrubá-la, mas reeducá-la propriamente.


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3 comentários

  1. Karol, amo demais ler seus textos!
    A Coreia é adorada por tantos mas tem tantas atitudes ridículas, como todas essas que você citou no post. Nenhuma delas merecia qualquer julgamento, como tantas que sofrem críticas todos os dias e também as que sofrerão, pq, infelizmente, vai demorar para a sociedade mudar. Mas é bom ver grupos como o Blackpink lançando músicas com críticas! Apesar de tb amar um chiclete fofo hasiuashsaiuas
    bjs <3

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  2. Amei o texto ❤ seu blog é muito fofo, vou ler os outros posts e fighting! ��

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  3. Texto incrível, mas não concordo com o final. O Blackpink tem realmente quebrado muitos estereótipos em clipes e outras coisas, mas elas próprias contradizem o discurso delas. É só assistir elas em um programa de entrevista ou algo do tipo, a Jennie força demais fofura muitas vezes. Ela é fofa? Siiim! Mas dá pra perceber que é forçado e que fazem isso para serem aceitas por essa classe de pessoas. BP está caminhando a passos lentos e muitas vezes como um caranguejo. Mas melhor assim do que seguir a mesma linha de todos os grupos e disseminar uma cultura extremamente machista.

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