Chega de pressão, adote um unicórnio e siga seus sonhos

by - abril 16, 2019


A entrada na vida adulta é um dos evento mais superestimados da existência humana. Regado de ilusões e despreparo, o que já seria suficientemente ruim torna-se ainda pior com um elemento para lá de comum: a pressão, principalmente a pressão familiar. Loja de Unicórnios, novo filme da Netflix, aborda o assunto sob o ponto de vista da "vítima". O post contém spoilers do longa-metragem.

Kit, personagem de Brie Larson, desde cedo demonstrou não só gosto como talento para as artes, se dando bem com um pincel e uma folha de papel em mãos, dando asas a sua imaginação, libertando sua criatividade em forma de arte. Uma frustrante experiência na faculdade de Belas Artes a deprimiu e reprimiu, mas não teve muito tempo para repensar suas perspectivas de vida quando começou a ser apedrejada pelas expectativas de seus pais.

"Você não pode ficar vendo desenho animado o dia todo."

A intenção pode até ser boa, mas não valida os métodos. Na cultura brasileira, para aproximar da nossa realidade, é muito comum sermos comparados com "o primo que fez concurso público" ou "a filha da vizinha que trabalha no emprego mais chato do mundo mas ganha sete mil por mês", sempre desencorajados de perseguirmos nossos verdadeiros sonhos por uma pressão em sermos financeiramente bem-sucedidos. Não há espaço para sonhar: "acorde e faça dinheiro", ao som de Twenty One Pilots.

Comparada ao vizinho-sem-sonho-sem-criatividade-sem-graça a exaustão, a protagonista age por impulso e envolve-se em um trabalho suspeito com colegas de trabalho ainda mais bizarros. Seu chefe, além das tendências sexualmente abusivas que renderiam um texto a parte sobre como é ser uma mulher em um ambiente predominantemente masculino e machista, alimenta falsas esperanças de crescimento na personagem de Larson.


"Você não vai querer ser estagiária pra sempre, né?"

Pela primeira vez na vida motivada a algo, se joga em um projeto que poderia alavancar sua carreira e ainda dar um bom uso a sua criatividade, mas acaba não só se vendo presa a mentiras lançadas em um jogo unilateral de sedução (lê-se: abuso) como ainda perde seu emprego após ousada e poética proposta de marketing para um novo aspirador de pó, facilmente descartada pela empresa que, novamente, prova sua masculinidade tóxica ao optar pela ultrapassada e sexista imagem da dona de casa sexy.

O resultado dessa experiência profissional forçada poderia ter sido aterrorizante, digno de traumas, mas a poética positivista do filme nos permite um final feliz pelo seu objetivo de transmitir uma mensagem: não desista dos seus sonhos, por mais distantes que eles pareçam estar. A narrativa de Kit em sua jornada de autodescoberta é muito triste, sim, mas extremamente inspiradora.

"A coisa mais adulta que você pode fazer é fracassar nas coisas que mais gosta."

Há uma grande metáfora nessa obsessão da personagem por unicórnios, que pode se manifestas em nós como qualquer desejo reprimido que há dentro de cada espectador - do filme e da vida. Ao contrário do que somos ensinados, de primeiro fazermos trabalharmos para depois, se estivermos vivos até lá, tentar sonharmos, o filme apresentada uma ideologia reversa - e MUITO mais saudável, mentalmente falando - na qual aprendemos sobre as responsabilidades adultas no processo da busca por nossos sonhos.

Além do âmbito profissional, o filme aborda ainda uma pressão familiar em cima de relacionamentos amorosos, porque é simplesmente inaceitável que uma mulher de quase 30 anos continue solteira, não é mesmo? Claro que não! Mas a família da protagonista - e de muitas outras mulheres por aí - parecem ainda não entender este conceito tão óbvio e forçam encontros desconfortáveis com vizinhos ou filhos de amigos.

 "Todos precisam de um pouco de mágica em suas vidas, mesmo os adultos."

Kit está muito ocupada perseguindo seus sonhos para se preocupar em iniciar um relacionamento com alguém mas, mais uma vez, no processo de sua jornada rumo ao tão desejado unicórnio, acaba esbarrando em Virgil (Mamoudou Athie) que se tornará uma peça de extrema importância não só para a realização do seu sonho de infância, mas para o seu percurso de autodescoberta - e, o melhor de tudo, sem ter sido forçado por ninguém: simplesmente aconteceu, como deve ser.

Virgil não era a parte que faltava em Kit pois a mesma já estava completa consigo mesma, em referência ao livro de Shel Silverstein, mas o apoio que este lhe proporciona traz forças a personagem, tornando a sua dolorosa jornada mais confortável enquanto aprende, ainda, a se relacionar com outras pessoas, saindo novamente de sua zona de conforto para amadurecer aspectos ainda desconhecidos de si mesma, mas desta vez por livre e espontânea vontade.

"Se você fosse um prédio, seria assim."

Enquanto a ajuda a construir um estábulo para o seu "melhor que um pônei", Virgil inicialmente pode não se dar conta, mas na verdade está ajudando Kit a construir a si mesma e, consequentemente, se construindo e desconstruindo com base em suas interações com a sutileza e a inocência desta personagem que deixa uma marca cheia de glitter em tudo o que toca, inclusive em Virgil. Juntos passam por um processo de adaptação por si mesmos, pelo outro e pela sua própria existência, principalmente.

Ele pode não acreditar em unicórnios, mas ele acredita em Kit e isso, ao contrário da descrença e frequentes cobranças familiares que a deixavam em um estado de humilhação, levanta o astral da garota e a permite ser ninguém mais do que si mesma, com ou sem unicórnio, mas com uma percepção muito mais ampla de si, das pessoas ao seu redor e do mundo, sentindo na própria pele as derrotas, mas também as conquistas.

"Toda pessoa tem um sonho"

E Kit conquista muitas coisas ao longo deste filme. Ela conquista sua independência, sua felicidade, sua motivação. Ela conquista uma amizade, o apoio dos pais, a confiança em si mesma. Ela conquista até mesmo um unicórnio! O que poderia, então, não conquistar? Quando se quer algo e se luta por isso, nada é impossível, e Kit torna-se uma inspiração para nós.

Então, quando se sentir pressionado por seus pais, amigos ou pela sociedade como um todo, seja no âmbito acadêmico, profissional ou amoroso, lembre-se que a vida é sua e que a única pessoa que pode tomar decisões por você é você mesmo. Seu emprego, seu interesse romântico, sua faculdade, seus hobbies... é você quem vive, é você quem escolhe. Escolha sua felicidade. Não seja mais uma pessoa a apertar botões mecanicamente sem se questionar o porquê. Adote um unicórnio, exponha sua arte, siga seus sonhos. O mundo é seu, se você quiser.

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