A Cinco Passos de Você: é possível amar alguém que você nunca poderá tocar?

by - março 16, 2019


Inicialmente lançado como um roteiro de cinema escrito por Mikki Daughtry e Tobias Iaconis, A Cinco Passos de Você (Five Steps Apart) foi adaptado em formato literário por Rachael Lippincott e lançando em novembro de 2018 pela Simon & Schuster Books for Young Readers, editora estadunidense. No Brasil, a a obra chegou em 25 de fevereiro pela Globo Alt. 

O livro conta a história de amor entre Stella e Will, dois pacientes de Fibrose Cística (FC), uma doença rara e sem cura que atinge principalmente os pulmões e impede o contato com demais portadores, precisando manter sempre a distância de 2 metros ou 6 passos um do outro: mas o que fazer os dois se apaixonam? Para piorar, um deles, Will, também é portador da B. Cepacia, uma bactéria indestrutível que diminui ainda mais a sua estimativa de vida, o tira automaticamente da lista de transplantes de pulmão e o proíbe de sequer sonhar em se aproximar de Stella para não contaminá-la e acabar com suas chances de receber um novo par de pulmões.


Com esse enredo, a obra apresenta-se como mais um livro de amor entre adolescentes em estado terminal, ao estilo de A Culpa é das Estrelas, mas com um diferencial bastante dramático que vem em formato de pergunta: é possível amar alguém que você nunca poderá tocar? A resposta é dada ao longo da leitura, mas o processo é bastante doloroso para leitores que prezam por narrativas repletas de toques, abraços e beijos, já que o contato físico está permanente e letalmente proibido.

Não deixa, entretanto, de trazer aquele lindo clichê das metades da laranja: extremos opostos que se atraem e se completam. Stella anda na linha e tem uma obsessão por manter tudo sob controle, enquanto tudo o que o Will quer é viver, mesmo que isso signifique não segui a risca seu tratamento e dar adeus a qualquer chance de sobrevivência. O mais marcante, entretanto, é o quão diferentes são suas visões sobre a morte, e como isso acaba sendo o que os aproxima - ainda que não fisicamente.


Neste mesmo sentido, surge um desencontro pelas perspectivas de esperança de cada um e, conforme seu relacionamento vai ganhando vida e a intimidade surge entre o casal em potencial, acabam por impactar, sem julgamento de valor, a vida um do outro com suas ideologias. Infestando o outro com a sua vontade de viver - independente do que essa palavra possa significar. As regras também se tornam relativas, e o título da obra ganha significado.

A arte transfigura em cena: os desenhos são parte do fio narrativo da obra, embora não estejam estampados nas páginas do livro, exigindo um pouco mais da imaginação do leitor para conseguir captar os traços detalhistas dos personagens em suas criações feitas a lápis de cor e giz de cera que são mais do que uma forma de passar o tempo ou de enfeitar as paredes, mas um meio de tornar a sua existência significativa. É por meio dos desenhos que Stella encontrará forças, seja nos trabalhos deixados por sua irmã ou nas peças de Will, mas sempre depositados a ela por uma pessoa de extrema importância em sua vida. Alguém que consegue, mesmo a seis passos de distância, fazê-la desejar viver


A Stella não só quer viver, como quer que os outros vivam: enquanto cuida de si mesma, passa a cuidar também do tratamento das pessoas que são queridas para si e, via internet, com seu canal no YouTube com milhares de visualizações, conscientiza pessoas ao redor do mundo sobre a Fibrose Cística enquanto narra suas experiências pessoais e dicas de como lidar com a doença e seus inúmeros tratamentos e cirurgias. O livro acaba tendo o papel de conscientizar, também, uma vez que muitos leitores - assim como eu - possam nunca ter ouvido falar sobre essa doença e, agora, ter ciência sobre ela. Sem contar que a personagem é tão foda a ponto de ter programado sozinha um aplicativo que avisa os horários de seus medicamentos.

Além dos personagens principais, outros rostos fazem parte dessa narrativa, cada qual com sua dada importância para o amadurecimento dos protagonistas e, nesse sentido, é importante destacar que as enfermeiras do hospital não são só plano de fundo para medicá-los e assisti-los vez ou outra, mas verdadeiras "fadas madrinhas" contemporâneas, que os amam de verdade e estão dispostas a fazer de tudo para vê-los o mais saudáveis quanto permitidos por suas doenças, mesmo que isso signifique puxar algumas orelhas.


Dentre os demais rostos que passam pelas páginas da obra, para Stella os mais importantes são Poe, seu amigo de infância e principal confidente que também está internado graças a FC, e duas amigas, Mya e Camila, tão livres quanto ela nunca será, mas com quem relaciona-se com pureza e sinceridade, sem qualquer gota de inveja ou constrangimento. A figura da irmã, Abby, e dos pais, também são importantes, principalmente para a sua motivação quanto a seguir a risca com seus tratamentos.

Will, por sua vez, tem um relacionamento desastroso com a mãe e dois amigos em quem confia e os ajudam a manter laços com a vida exterior ao hospital, mas encontra seu refúgio somente em Stella, dificultando ainda mais a própria vida da garota mas, para citar uma frase do livro, amor é amor. De que vale uma vida na qual não se pode amar? O livro vem para nos fazer refletir sobre o assunto e, com toda a certeza, vale a leitura.


Como já citado, a obra é inusitadamente um filho do filme, embora normalmente seja o contrário. O filme estreou ontem (15) nos Estados Unidos e chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, em 21 de março, enquanto a adaptação de seu roteiro já circula as livrarias do país desde o mês anterior, com uma belíssima capa que remete aos desenhos descritos em sua narrativa e uma sobrecapa estrelando Haley Lu Richardson e Cole Sprouse, os astros do filme. Assista ao trailer da trama:


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