Persona: Conquistadora | A fatalidade da submissão romântica

by - abril 14, 2019


Persona, série antológica da Netflix protagonizada pela aclamada artista coreana IU, chegou à plataforma de streaming na última quinta-feira (11) com sua inovadora proposta de subjetivismos que trazem à tona a versatilidade da idol. No segundo episódio, Conquistadora (Collector), IU interpreta uma jovem misteriosa que sumiu por dez dias em uma viagem com colegas sem avisar seu namorado que, preocupado e enciumado, tenta conversar com ela, mas só recebe descaso em troca.

Em primeiro momento, Jeong-u tenta esconder seu ciúmes, inicialmente descrito como fruto de sua insegurança, questionando as ações de sua bela e jovem amada enquanto tenta não julgá-la por suas ações, buscando compreender seus conceitos de liberdade, mas logo percebe estar caindo em uma rede de mentiras. 


A personagem feminina, por sua vez, é uma verdadeira conquistadora como o próprio nome do episódio sugere, envolvendo não só seu "amante" em mentiras com sua boa lábia e beleza, fazendo-o se sentir culpado por suas ações, mas também o público que, assim como Jeong-u, tenta entender o lado da mulher, erroneamente.

Toda sua fala e atitude é permeada por um teor sexual fortíssimo, sendo o prazer próprio a sua única preocupação. Egoísta, sequer finge estar entediada, sempre buscando refúgio em seu celular ou bocejando abertamente, mas nunca expondo em palavras seus verdadeiros sentimentos - e, quando questionada sobre eles, age com grosseria.


Fala sobre "ser mais livre e eterna", mas falta-lhe o consenso sobre um relacionamento sem compromisso, falta conversa, falta empatia. Neste cenário, o personagem masculino revela-se cada vez mais insignificante e diminuto a ponto de poder ser guardado em uma caixinha, literalmente, assim como a sua atitude - nula.

Em uma tentativa de debater sobre o amor e o significado de um para o outro, a personagem cobra um gesto de amor verdadeiro que poderia levantar múltiplos questionamentos, mas o ser submisso aceita as dolorosas coações de espontânea vontade, satisfazendo os desejos sádicos da protagonista e alimentando o ego faminto desta colecionadora de corações.


O episódio é interessante por, em primeiro lugar, subverter os estereótipos de gênero de que, em um relacionamento, a submissão sempre é dada por parte da mulher, colocando-a como a jogadora de cartas em uma partida onde só há um vencedor, ela mesma, mas sem romantizar suas ações, deixando claro ao público o quão errado é seu comportamento.

Não santifica-se, entretanto, o posicionamento masculino: a trama nos faz questionar ainda a possibilidade de que Jeong-u não necessariamente tenha se apaixonado pela personagem feminina, mas pela imagem que ele criou dela com base em suas expectativas para um relacionamento mais dinâmico que o seu anterior, taxado como comum, morno, mas que revela-se incapaz de acompanhar o ritmo de sua musa libertina, provando-se ainda um conservador no quesito romance.


Esse conservadorismo pode e deve ser questionado quanto a suas posições iniciais ao relacionar-se com a personagem de IU, pois é nesta dualidade que se comprova a verdadeira personalidade do rapaz: insegura, instável, em busca de uma aventura que não está pronto para viver, mas tampouco pronto para assumir suas inseguranças a ponto de agir fatal e cegamente em nome de um amor cego, se é que isto pode ser chamado de amor.

É verídico e grandioso o incômodo causado no espectador por este enredo, o que comprova a qualidade do trabalho de IU em entregar uma personagem capaz de instigar arrepios ao interpretar os mais frios sentimentos com tamanha expressividade, assim como Yim Pil Sung foi magnífico em sua direção que soube intensificar os picos dessa linha tênue entre o amor cego e a confiança.

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