Ano Hana e o medo de deixar ir

by - agosto 13, 2019


Ano Hi Mita Hana no Namae o Bokutachi wa Mada Shiranai (あの日見た花の名前を僕達はまだ知らない。), ou simplesmente Ano Hana (あの花), é um anime de 2011 que fez muito sucesso não só no Japão, mas em todo mundo, com sua tocante narrativa de amadurecimento e sobre como, às vezes, é difícil deixar o passado para trás.

Na história, Menma é uma garota que faleceu jovem demais, ainda na infância, deixando seus familiares e amigos com feridas que pareciam impossíveis de cicatrizar. Yadomi (ou Jintan, como é docemente apelidado) é provavelmente o mais afetado: além de perder sua melhor amiga e primeiro amor, não demorou a vivenciar ainda o falecimento de sua mãe. Embora anos tenham se passado, Jintan ainda não aprendeu a lidar com essas dores, e o retorno de Menma como um "fantasma" visível somente para ele é agridoce.

Enquanto Jintan re-encara a garota e os sentimentos que sentia - e ainda sente - por ela, Menma fica chocada ao ver o quanto tudo mudou desde sua partida: o clube Os Superprotetores da Paz se desfez e eles não são mais amigos, cada qual tentando levar a sua vida isoladamente, lidando sozinhos com as marcas da perda de Menma. Mesmo com as diferenças, os agora adolescentes se reúnem para descobrir e realizar o último desejo da jovem para que, finalmente, ela possa ir ao céu e seu espírito descanse em paz.

Embora Menma seja um fio condutor e represente o motivo desta reunião, os grandes acontecimentos da história não são com ela, mas com seus amigos: aqueles que estão com medo de deixá-la ir, de assumir sua morte, terão que lidar com estes sentimentos de uma vez por todas, encerrando este lindo ciclo para poderem dar continuidade a suas vidas, até então estagnadas ou mal aproveitadas devido ao luto, sim, mas principalmente ao arrependimento.

O arrependimento de não terem demonstrado seus verdadeiros corações enquanto era tempo. O arrependimento do que poderiam ter feito - ou deixado de fazer - para evitar, ainda que indiretamente, o desfecho que a história de Menma teve. O arrependimento de não terem lidado de outra forma com seus sentimentos de luto, afastando-se de tudo e de todos no momento em que mais precisava de um amigo em quem se apoiar. O arrependimento do arrependimento, até.


Cada um a sua forma teve sua vida afetada pela partida prematura de Menma e, sem o apoio necessário, a mágoa transformou-se em uma bola de neve que nocauteou, um a um. O retorno de Menma, mais do que sua tentativa de ter uma promessa cumprida, representou o ato final para esta peça que, até então, estava carente de um desfecho. Foi um dedo na ferida, sim, mas um contato necessário para fazer com que todos percebessem o quão não-saudável era a vida que estavam levando - e o quanto a própria Menma preferiria que eles estivessem bem.

É difícil deixar para trás. Seja uma amizade ou romance que acabou, um querido que partiu ou um acontecimento que parece insuperável, mas cada fio que nos agarramos é uma ferida aberta que, com o tempo, infecciona e machuca ainda mais - às vezes, por mais impossível que pareça, por mais doloroso que seja, o certo é se despedir do fio e soltá-lo.

Não faça de seus sentimentos uma prisão: liberte-se, viva, busque ajuda para seguir em frente. Ano Hana pode ser uma narrativa ficcional, mas tem muito a nos ensinar sobre força e libertação, sobre o poder da amizade e da confiança, sobre se permitir a expor seus sentimentos, sobre trocar a permanência de um passado doloroso pela possibilidade de dias melhores.

Faz parte do processo de amadurecimento deixarmos coisas para trás: hábitos, sentimentos, pessoas e lugares que fizeram parte de nós no passado e, hoje, não nos representam mais, mas nem por isso não sentimos saudade, a nostalgia ao rever fotos de infância ou reencontrar um ex-amigo-atual-desconhecido. Não precisamos fingir que não aconteceu, que nunca existiu, que nunca significou, mas precisamos aprender a assumir o encerramento de um ciclo para podermos viver outro. Isso é amadurecer. 

Permita-se a ir e a deixar ir.

Permita-se o amadurecimento.

Veja também:

0 comentários