Ashley O e o lembrete de que artistas são humanos, não robôs

by - junho 13, 2019


Recentemente foi lançada na Netflix a quinta temporada de Black Mirror e seu terceiro episódio, Rachel, Jack and Ashley Too, apresenta-nos um lembrete de que artistas são humanos, não robôs - e nos preocupa por ainda precisarmos nos lembrar disso, como se já não devesse ser óbvio o suficiente.

Interpretada por Miley Cyrus, a personagem principal é Ashley O e sua narrativa apresenta-se muito semelhante a de sua atriz, se lembrarmos da época de Hannah Montana e de todo o escândalo em volta da "libertação" de sua verdadeira personalidade após deixar a Disney e embarcar em uma carreira mais autoral e livre.


Ashley O é manipulada pela tia para agir, em frente aos fãs e à mídia, como uma mulher inspiradora para seus fãs - um público feminino e jovem que precisa de uma figura empoderadora, que o estimule a seguir adiante com seus sonhos. Por trás de toda essa mensagem positiva, entretanto, revela-se como alguém cansada de fingir e só gostaria de poder ser uma coisa: ela mesma.

Sua tia, assim como o restante da equipe que gerencia sua carreira, não estão preocupados com suas verdadeiras emoções ou anseios: para darem continuidade a mina de ouro que é sua carreira, submetem-na ao uso de drogas e medicamentos, contra sua vontade, até o auge de induzirem-na ao coma para evitar que a verdadeira história venha a público.


Enquanto todo este cenário se desenvolve, Ashley Too é colocada a venda. Trata-se de uma boneca/robô programada para responder às perguntas de seu usuário como se fosse a cantora, inspirada em sua personalidade - ou, ao menos, naquela porcentagem de personalidade a qual a artista foi treinada a possuir em público.

Black Mirror, por sua vez, é uma série distópica que não pretende falar sobre o futuro, mas sobre uma maximação do presente: mesmo agora, em 2019, há uma robotização dos artistas, especialmente cantores do cenário pop/teen, na qual não se permite que eles emitam opiniões, pensem por conta própria ou sejam eles mesmos.


São artistas pensados para o mercado musical, fabricados como modelos perfeitos a serem seguidos e qualquer imperfeição, por mais humana que seja, é inaceitável e pode colocar sua carreira bem-sucedida em risco, uma vez que os próprios fãs têm problemas em aceitarem seus defeitos e peculiaridades - estes também programados a consumirem produtos massificados e submissos.

E assim foi com a própria Miley durante os anos de Hannah Montana: a própria personagem, sem a peruca, sendo uma garota normal, levava o mesmo nome da atriz, confundido sua pessoa verdadeira de sua persona ficcional, confundindo o público sobre onde acabava Miley, a personagem, e onde começava Miley, a humana.


E Hannah Montana, então? Com sua peruca loira e músicas joviais exalava a perfeição Disneyniana que, desde cedo, fomos ensinados a prestigiar sem questionar. Montana era, de fato, um ótimo exemplo a ser seguido: sua perseverança, seu talento, seu carisma... mas em algum momento nos perguntamos como se sentia a verdadeira Miley Cyrus por trás de toda essa máscara ou apenas pedíamos bis para The Best of Both Worlds?

Quando Cyrus deixou a Disney, o choque. Ainda recordo-me da primeira vez que ouvi Can't Be Tamed, em 2010, e mal acreditava que se tratava da mesma pessoa. "Como ela se tornou em uma rebelde, tentando se livrar da imagem de Hannah Montana assim", diziam diversos dos comentários na internet à época, mas como saberíamos, nós, se essa já não era a verdadeira Cyrus muito antes, escondida atrás de um produto? Não teríamos como saber. Sequer podemos afirmar que a própria Cyrus saberia.


Hannah Montana era um personagem, enquanto Cyrus dançava conforme a música, um fantoche, uma marionete de seus produtores. Assim como Ashley O. Assim como muitos outros artistas. Nosso erro? Não deixá-los se libertarem. Esperar deles nada menos que a perfeição quando sabemos que a imperfeição é o que nos torna humano - e humanos eles são, afinal.

Neste episódio de Black Mirror, não é Ashley Too e o avanço da tecnologia que assusta, já estamos nos habituando a robôs que respondem por comando de voz. O aterrorizante é o quão próximo da realidade se encontra o tratamento inumano que é dado aos artistas: meras máquinas de dinheiro. Isso sim é assustador: a desumanização do ser humano.

Se não podermos ser humanos, então o que seremos?

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