Frank e o Amor, uma aula de identidade e romance jovem

by - 28 junho


David Yoon estreou no cenário literário em 2019 com Frank e o Amor, um young adult que chegou às livrarias brasileiras ainda no mesmo ano, com tradução de Lígia Azevedo e publicação da Editora Seguinte. Como diz o texto da sinopse da obra na Amazon, "Frank está descobrindo o amor ― e você está prestes a se apaixonar por este livro".

A trama acompanha a história de Frank, cujos pais vieram da Coreia do Sul em busca de uma vida melhor nos Estados Unidos. O rapaz cresceu dividido entre as tradições coreanas e o estilo de vida americano, fazendo-o se questionar sobre seu próprio eu. Tudo fica ainda mais complicado quando se apaixona por Brit Means, uma garota branca, o que é inaceitável para sua família. 


Para poder curtir seu romance em paz, bola um plano com a ajuda de Joy Song, uma amiga da família que está passando por problemas parecidos: eles fingirão namorar um com o outro para suas famílias a fim e diminuir a desconfiança enquanto ficam com quem quiserem. O plot de fake dating, entretanto, já é um conhecido dos leitores como causador de grandes confusões, e não é diferente em Frank e o Amor.

Mais do que Frank descobrindo o que é amar, o livro aborda a descoberta de sua identidade como um coreano-americano que, preso a se provar mediante as expectativas alheias, seja de seus pais ou de toda a sociedade, acabou esquecendo de se preocupar em conhecer quem ele é realmente é, seus gostos, suas vontades e a sua própria interpretação de amor.


O conflito entre culturas geracionais é uma das partes mais interessantes da narrativa: a geração de Frank não concorda com os pensamentos fechados dos pais nascidos na Coreia, da mesma forma em que os mais velhos não entendem a forma com a quais seus filhos estão crescendo, imersos em uma cultura completamente diferente da sua. O diálogo será essencial para quebrarem essas barreiras e aprenderem uns com os outros.

Entretanto, Frank e o Amor não fica só entre a cultura americana-coreana: há muita diversidade no livro ao apresentar outros personagens não-brancos na narrativa, incluindo um melhor amigo negro que trará a discussão racial a um nível muito mais profundo: apesar da xenofobia e do preconceito que sofrem, a família de Frank também manifesta comportamentos racistas frente a outros grupos.


Tudo, entretanto, não deixa de ser passado de uma forma bastante jovial: apesar de profundas, as "lições de moral" da obra não são didáticas, sendo passadas ao leitor de forma muito delicada e bem estruturadas ao meio ao desenvolvimento do protagonista. Aprendemos na mesma medida em que Frank aprende, acompanhando sua jornada de amadurecimento e também ganhando com ela.

Também acompanhamos o Park em outro aspecto: a falta de fluência em coreano. E os mais velhos usam disso como uma ferramenta para falar coisas que não querem que os filhos escutem. David Yoon foi extremamente inteligente ao retratar isso no livro colocando essas falas em 한국어, sem romanização, muito menos tradução. Dica: passe as páginas no Google Tradutor após a leitura para entender toda a conversa e de quebra aprender umas palavrinhas em coreano.


Não deixa de ser, ainda, um coming of age como qualquer outro: ambientado no último ano do ensino médio, mostra todas as inseguranças desse rito de passagem para a vida adulta, o medo do futuro e ansiedade pela faculdade, assuntos inevitavelmente ligados a pressão por ser bem-sucedido. O que aumenta exponencialmente em uma família tradicional coreana que largou tudo pela chance de sucesso em outro país.

E esse livro não poderia ter sido escrito por qualquer outro se não David Yoon, que usou as próprias experiências de vida como um coreano-americano e, apoiado nas lembranças de sua adolescência e da interação com sua própria família e seu meio social, pôde escrever um own voices que nos permite uma visão e lição muio significativa dessa realidade, sem deixar de lado todo o entretenimento que um bom romance YA pode oferecer.

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Leia também: Por que ler "Frank e o Amor", de David Yoon?, por Sem Spoiler

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