TEORIA — María, a ganância, matou Hwasa

by - 15 julho


Hwasa, a integrante mais nova do quarteto feminino MAMAMOO e uma das estrelas mais queridas da atual geração do K-POP, realizou seu comeback solo em 29 de junho de 2020 com María, cujos clipe extremamente artístico e letras fortes abrem um grande leque de interpretações para os fãs decifrarem. Nesta, María, a ganância, matou Hwasa.

As teorias já começaram antes mesmo do lançamento do MV, com a revelação de dois teasers: Morte Vita ("vida", em latim). Já nos era apresentado um conceito dicotômico não só entre os estado do eu-lírico, mas de uma dualidade entre as personalidades do mesmo. María é o nome católico de Hwasa, utilizado nesta análise para representar um segundo "eu" da cantora.


Há "duas Hwasas" no MV: uma de cabelos pretos, representando ela própria, enquanto a ruiva é María. O clipe começa com Hwasa morta na banheira, cercada por repórteres que querem um último clique da diva pop. Uma clara crítica as perseguições de paparazzis e sasaengs (fãs obcecados) que frequentemente invadem a privacidade de celebridades.


Os fotógrafos estão muito ocupados em conseguirem uma boa foto dela morta, lutando entre si pelo melhor lugar, o melhor ângulo. Logo atrás, María assiste a tudo de braços cruzados, quase como se debochasse da situação. 


Apesar de toda a aglomeração na cena do crime, seu velório está com as cadeiras vazias: ninguém foi vê-la agora que, morta, não têm mais relevância para a mídia. Hwasa está sozinha, nem María está com ela. As pessoas só se importavam com ela enquanto rendia visualizações para suas matérias tendenciosas. Aqueles repórteres todos só queriam usá-la.


A cena que se inicia em preto e branco antecipa um "flashback" para entender todo o crime: de volta a quando Hwasa era viva, temos diversas pessoas oferecendo um isqueiro para que ela — ou melhor, María  pudesse acender seu cigarro. Diversas pessoas que estão ali ao seu lado tentando ser úteis, mas sempre com duplas intenções. Chamar sua atenção. Ganhar 15 minutos de fama. Qualquer coisa para sentirem um pouco de sua popularidade.


Ainda no passado, María entra em cena ensanguentada para um jantar sinistro: ela oferece os órgãos  de Hwasa para seus "convidados" comerem, mas todos estão com cara feia, como se não gostassem do que lhes foi servido. Criticando. Eles não gostam da carne de Hwasa. Eles não gostam de Hwasa ou do que ela tem a oferecer. Mas María continua insistindo em fazê-los comer.


Aqui entendemos que María não é uma pessoa, mas sim a personificação daquele sentimento de sempre querer agradar. É, ainda, a representação de como Hwasa se mata pelo público, dá seu sangue, suor e lágrimas — literalmente — e ainda assim é criticada. O que faz nunca está bom, o que é nunca é o suficiente.

O público sempre quer mais, e ela vai ficando cada vez menor, morrendo, conforme cede aos interesses públicos. María é quem a faz ceder, é quem a oferece, a vende, a transforma em produto. 


María, entretanto, não percebe isso: o sentimento a consome tanto e acredita estar fazendo isso para o próprio bem de Hwasa. María, além de servir pequenas porções de Hwasa para o público, também se alimenta dela e lambe os lábios em uma falsa gratidão por seu sacrifício

O vídeo é um total complemento à letra da música, que explicita a interpretação:

Eu já fui tão criticada que tenho indigestão
Mas mesmo que eu esteja chateada, o que posso fazer?
Todo mundo tenta me odiar ao máximo
Eles me destroem
Isso alimenta eles?


María, como todos, só faz algo por Hwasa por interesse: ela gosta da vida de luxo que lhe é proporcionada. Ela ama ficar na piscina, posar para os holofotes e ser aplaudida pelo público. María usa Hwasa para ganhar atenção e poder. María é gananciosa. 

Vou transformar uma crise
Em uma oportunidade
Se você quer realmente me ver chorar
Aqui, pegue as minha lágrimas


Mesmo após tudo o que já fez, María ainda não está satisfeita e sonha com mais. Para atingir seus novos objetivos, convida os haters para jantarem o que restou de Hwasa. Todos os convidados são encapuzados, pessoas anônimas que fazem comentários maliciosos sobe Hwasa na internet sem terem sequer a coragem de mostrar sua cara. Com os talheres em mão, sinalizam ansiedade em poderem devorá-la logo — no sentido de acabar com ela e sua carreira. María não entende que, se Hwasa morrer, ela também padecerá e será o fim de todo o seu luxo. Está cega pela ganância.


O clipe corta para Hwasa, revelando que ficou louca antes de morrer. Precisou ser internada em uma clínica psiquiátrica após dar tudo de si para os outros e continuar sendo atacada. Por ter sacrificado seus sentimentos, perdeu também sua sanidade mental. Ela parece assustada, fora de si, mas sobretudo triste. Perceba seu olhar marejado. 


Entretanto, sua dor ainda parece longe de acabar: mesmo em seu pior estado, continua a ser criticada. Hwasa já está no fundo do poço, mas as pessoas ainda continuam a escrever palavras fulas sobre elas. A atacarem-na com suas palavras maldosas. A perseguirem-na com seu ódio sem fim. Os lápis representam os artigos tendenciosos lançados na internet. 


Hwasa tenta fugir, mas é difícil. Está presa em um labirinto: onde quer que vá, qualquer caminho que escolha, continuará sendo perseguida. O ódio dos haters nunca parará. A coroa que encontra no caminho, com pregos, lembra a coroa de espinhos utilizada por Cristo durante sua crucificação: na Bíblia, a coroa representa Cristo carregando toda a dor para livrar o mundo da maldição.

No MV, a coroa de Hwasa representa o preço de ser considerada a "Rainha" desta geração musical: as expectativas sobre ela são altas, o que faz essa coroa ser dolorosa, como pregos. Aceitar a coroa é uma honra, uma prova de que seu esforço está sendo reconhecido, mas ao mesmo tempo é um novo obstáculo a ser enfrentado, e a essa altura ela já não possui mais forças para aguentá-lo.


Ao mesmo tempo em que aceita a coroa, intercalam-se cenas de uma tesoura sendo encontrada: Hwasa simula se cortar, como se estivesse testando seus próprios limites, testando se está pronta para por um fim a toda essa história. E está. 


Voltamos para a ambientação inicial, pois estamos nos aproximando de seu desfecho. Hwasa, na banheira, chora e reza, está desesperada. A coroa, ao lado, revela que ela aceitou seu peso, mas é difícil lidar com a dor. Não é mostrado como, mas fica implícito que a tesoura manuseada nas cenas anteriores foi a arma utilizada pela própria para se matar. María, a voz gananciosa dentro de si, levou-a a ascensão e a queda

Não é, entretanto, uma morte literal: é a morte dos sentimentos de Hwasa. Como se ela tivesse perdido o jogo para María, deixando todas as coisas ruins e supérfluas tomarem conta de si.


Com Hwasa "morta", María está livre para assumir seu lugar. Ela dança com os homens, sensualiza em seu vestido vermelho, está curtindo finalmente estar no poder. Mas será que é tão bom assim viver sem seus sentimentos?  


Na última cena, quase nos pós-créditos, Hwasa está diferente: sua feição é sombria, como se estivesse sentido o peso de tudo o que aconteceu e vivenciou. É o corpo de Hwasa, mas é María quem vive nela. Só restou María. A María que é linda sem esforço. A María que todos gostam, mas que todos souberam apreciar o fato de que ela só vivia às custas de Hwasa. 

María, María
Estou falando isso por você
É uma noite estrelada
Não se torture
Oh, María, estou falando isso por você
Por que você está fazendo tanto esforço?
Você já é linda

Wheein, Solar e Moonbyul, que integram com ela o grupo MAMAMOO, entram em cena com sorrisos e presentes, possivelmente vindo recebê-la após sua dispensa na clínica de reabilitação. Será que suas amigas perceberão a mudança em sua personalidade? 

Os paparazzis já perceberam: como Hwasa não morreu literalmente, as cenas iniciais ganham um segundo sentido, podendo ser representações para os jornalistas que, ao verem como sua atitude mudou, criaram grande caos em cima disso ao novamente atacarem-na com suas palavras. Entretanto, a nova versão de Hwasa não é tão interessante para a mídia quanto a anterior e, sem vida, sem sentimentos, sem autenticidade, perde sua força e relevância pública, quase como se morresse. 


A música, conceito e MV de María é uma crítica de Hwasa sobre a pressão midiática, a necessidade de parecer sempre perfeita, independente dos custos psicológicos que terá de arcar, deixando ao público uma grande reflexão que, em pleno 2020, deveria ser indiscutível: idols não são perfeitos, e toda essa cobrança está acabando com a sanidade deles.

Essa teoria é uma autoria do blog Elfo Livre e não deve ser compartilhada sem os créditos.
Tradução da música retirada do site Letras.

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4 comentários

  1. Olá! Eu me perguntava muito sobre o significado de certas cenas, mas compreendia a mensagem geral. Por isso amei o seu texto, muito esclarecedor. Obrigada!

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  2. Eu jurava que a cena do cigarro (com todos oferecendo isqueiros) era uma referência àquele filme (desculpa, eu realmente esqueci o nome mas é um filme um pouco antigo até). :D

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    1. Oi! Pesquisei aqui, é o filme Malèna, um italiano lançado em 2000. Eu realmente não tinha essa referência então não captei no MV, mas é mais uma possibilidade de interpretação. Obrigada por agregar!

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