Contos de Fadas através dos tempos: uma viagem pela literatura e cinema

by - 22 agosto

Good Friends, por Albert Edelfelt (Domínio Público)

Os contos de fadas são, geralmente, o primeiro contato do ser-humano moderno com a literatura. Obras fantásticas, costumam apresentar seres místicos e magia em seu enredo, sendo comumente voltadas para o público infantil, com uma linguagem acessível e páginas ilustradas, coloridas, a fim de conquistar a atenção e despertar o interesse da criança pelo livro.

Entretanto, essa nem sempre foi a cara dos contos de fadas, sendo algo muito mais recente do que se imagina. Inicialmente, de fadas as histórias não tinham nada. Seus enredos eram assustadores e voltados para o público adulto, pois até então não se havia uma literatura voltada para as crianças. Alguns dos contos mais populares remontam, na verdade, à Idade de Bronze, há cerca de seis mil anos, e foram repassados de geração em geração por tradição oral, que só vieram a ser registradas após a Idade Média, com o surgimento da imprensa.

A literatura infantil propriamente dita começa a surgir entre os séculos XVII e XVIII, na Europa, mais precisamente na França, quando Charles Perrault começa a editar as narrativas folclóricas orais dos camponeses, suprimindo as passagens violentas e obscenas de modo a adequá-las à audiência da corte do rei Luís XIV, que foram reunidas no livro Histórias ou contos do tempo passado, com suas moralidades: Contos de Mãe Gansa, publicado em 1697.

Das Märchenbuch, por Walter Firle (Domínio Público) 

Na mesma época, La Fontaine também realizada o resgate histórico das Fábulas de Esopo na França, enquanto na Alemanha agiam os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, a partir de sua pesquisa linguística que reuniu um apanhado de narrativas na coletânea Literatura Clássica Infantil. O dinamarquês Hans Christian Andersen chega em XIX, misturando o folclore nórdico com conteúdo autoral próprio, que deram origem a histórias conhecidas nossas como O Patinho Feio e Soldadinho de Chumbo.

A literatura infantil começa a se expandir também para a América, com Frank Baum e seu livro O Mágico de Oz. Neste cenário de início do século XX, marca-se ainda a chegada e popularização do cinema, com os estúdios Walt Disney representando a partir dos anos 30, com A Branca de Neve e os Sete Anões, as narrativas literárias infantis em adaptações animadas que encantam os olhos não só do público infantil, mas dos adultos também.

Essas versões são as que comumente vem a nossa memória quando nos referimos aos contos de fadas: são mais doces e, segundo as convenções atuais de infância e infantilidade, mais adequadas ao público mirim do que a de sua origem, passando por uma transformação cultural e até mesmo mercadológica antes de atingir os cinemas e televisores de todo o mundo.

Toma-se por exemplo A Bela e a Fera, história da esbelta moça que se rende a uma horripilante criatura para poupar a vida do velho pai. Escrita por Madame de Villeneuve e publicada pela primeira vez em 1740, teve seu texto tão alterado, adaptado e reproduzido para novas mídias, públicos e formatos que, hoje em dia, é difícil encontrar alguém que conheça a história original.

The Beauty and the Beast, por Warwick Goble (Domínio Público)

As versões mais populares da história foram produzidas para os cinemas, sendo a de 1991, dos estúdios Disney, a mais conhecida e aclamada. Esta romântica animação infantil, com roteiro de Linda Woolverton e direção de Gary Trousdale e Kirk Wise, arrecadou $145.863.363 em sua estreia, mas não só o público geral se interessou pelo lançamento como também a crítica especializada, levando o filme a conquistar o posto de primeiro longa animado a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme e, embora não tenha conseguido ganhar o prêmio principal, obteve as estatuetas de Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original com a faixa Beauty and the Beast, escrita por Howard Ashman e composta por Alan Menken.

Embora tenha sido produzido em live-action inúmeras vezes por estúdios menores, como a versão de 1962, com Joyce Taylor e Mark Damon, o primeiro musical de 1987, com John Savage e Rebecca De Mornay ou, o de baixo orçamento 2009, dirigido por David Lister, o caro e popular de 2014, por Léa Seydoux e Vincent Cassei e até mesmo internacionais, como em 1946 na França, 1952 na Rússia, 1977 na Itália e 1978 na Checoslováquia, foi em 2017 que encontrou seu ápice pela Disney, dessa vez com atores reais.

Estrelado por Emma Watson (conhecida por interpretar Hermione Granger na saga Harry Potter) e Dan Stevens (o Edward Ferrars de Razão e Sensibilidade, filme de 2008), a história é mais próxima da versão animada dos anos 90 do que do conto original, preferindo os atos musicais e omitindo as passagens de desejos carnais: em vez de um jantar, na história francesa Fera convidava Bela para se deitar com ele. 

Foto: Divulgação/Walt Disney Pictures

Além de induzir à uma nova representação de leitura, segundo a compreensão de Maria Helena Martins (1982), ou de influenciar diretamente a leitura de literatura, das obras escritas, também gera influência de mercado e lucro, com a produção de brinquedos e outros produtos que desencadeia ainda o consumismo infantil, adorado pela publicidade e criticado por educadores.

Embora o conto original ainda seja pouco conhecido ou lido pelo público geral, 63,4% dos adeptos ao cinema de contos de fadas desenvolverem, segundo pesquisa lançada pelo Elfo Livre, o interesse em conhecer as tramas originais graças aos filmes modernos, seja por meio de pesquisa on-line ou leitura dos textos íntegros via obras como a trilogia Contos de Fadas em suas versões originais, publicado no Brasil pela Editora Wish.

Em tempos contemporâneos e sob o domínio tecnológico, as histórias de fadas, princesas e bruxas também passaram por um processo de modernização nas chamadas releituras, em que as personagens saem do contexto medieval e fantástico para invadirem ficções mais verossimilhantes, próximos da realidade, tomando formas mais ordinárias enquanto refletem, em sua personalidade e ações, aspectos de suas versões originais.

Foto: Divulgação/Galera

O mercado mundial tem apostado cada vez mais em dar uma nova cara às antigas princesas. No Brasil o maior exemplo é a Paula Pimenta, autora que produz releituras modernas dos contos de fadas como CinderelaA Pequena Sereia e A Bela Adormecida. Em suas versões, se perde a magia e as fadas verdadeiramente ditas, mas mantem a essência e mensagem principal ao apresentar personagens e história da época em um contexto mais realista, próximo do leitor, mas ainda fictício.

E mesmo essas versões habitam os cinemas: Cinderela Pop ganhou adaptação fílmica em 2019 com a atriz e apresentadora Maísa Silva no papel principal. A Nova Cinderela (2004) e Encantada (2007) não são baseados em nenhum livro em específico, mas suas homenagens aos contos de fadas em evidentes releituras fazem das obras grandes exemplos a serem citado. 

A contemporaneidade também trouxe outra vertente: a hora dos vilões contarem suas histórias. Malévola (2014) foi um grande sucesso de crítica e bilheteria ao mostrar o ponto de vista da bruxa de A Bela Adormecida. Na literatura, Sem Coração, de Marissa Meyer, nos leva ao passado da Rainha de Copas de Alice no País das Maravilhas.

Os contos de fadas, portanto, podem ter sua origem há muitos e muitos séculos (ou até milênios), mas segue atual devido a sua atemporalidade e capacidade de reinvenção: boas histórias são reinterpretadas conforme os novos tempos e, assim, se faz a manutenção dos contos de fadas para que todas as gerações possam aproveitar de seu entretenimento, mas sobretudo de suas lições.

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